sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Leia o Livro, Veja o Filme: Pergunte ao Pó

Pergunte ao Pó
John Fante
José Olympio Editora
206 páginas


A história se passa nos Estados Unidos, mais precisamente em Bunker Hill, Los Angeles, em 1930, período da Grande Depressão. Acompanhamos Arturo Bandini, aspirante a escritor que teve um conto publicado e agora vive de lembranças da glória que nem chegou a ser alcançada. Ele passa seus dias no minúsculo e empoeirado quarto de hotel, tentando em vão parir uma obra-prima, ou vagando pela periferia de Los Angeles, e termina suas noites no decaído bar Columbia Buffet, onde trabalha Camilla Lopez, garçonete mexicana por quem sente uma forte atração e um grande desprezo.
 Ela representa o passado de pobreza e humilhações que Bandini sofreu por ser de origem italiana, então ele a trata mal. Mas ele está apaixonado por ela, ele a deseja, mas não consegue consumar o ato. Frustrado, busca consolo em prostitutas, gastando o escasso dinheiro que ganhava com a venda de contos, que na verdade, eram trechos editados das longas cartas desesperadas que ele escrevia a seu editor Hackmuth.

Arturo Bandini pode ser interpretado como o alterego de John Fante. Como Fante, Bandini também saiu do Colorado e foi para a Califórnia atrás do sonho de ser um famoso escritor, seduzido pelo estilo de vida das celebridades que estampavam jornais e revistas, lindas mansões, belas mulheres, piscinas reluzentes, palmeiras verdejantes. Todavia, por ser pobre, o que Los Angeles reservou para ele era bem diferente:

“...escadarias poeirentas de Bunker Hill, passando pelos prédios de vigamento de madeira cobertos de fuligem ao longo daquela rua escura; areia, óleo e graxa sufocando as inúteis palmeiras enfileiradas como prisioneiras agonizantes, acorrentadas a um pequeno retalho de chão negro escondendo seus pés”.
[página 55]

Como o próprio Bandini percebe em dado momento, para ser um bom escritor, certos requisitos são essenciais:
“Eu tinha vinte anos na época. Que diabo, eu dizia, não se apresse, Bandini. Você tem dez anos para escrever um livro, vá com calma, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas. Este é seu problema: sua ignorância da vida. Ora, meu Deus, rapaz, você percebe que nunca teve uma experiência com uma mulher? Oh sim, eu tive, oh sim, tive bastante. Oh não, você não teve. Precisa de uma mulher, precisa de um banho, precisa de um bom empurrão, precisa de dinheiro”.
[página 19]

Uma coisa muito legal do livro é que todos os pensamentos e sentimentos de Bandini são compartilhados sem pudores:

“Desci os degraus de Angel’s Flight até Hill Street: cento e quarenta degraus, com os punhos cerrados, sem medo de homem algum, mas apavorado pelo túnel da rua Três, apavorado de atravessá-lo a pé – claustrofobia. Apavorado por lugares altos também e por sangue e por terremotos; fora isso, bastante corajoso, excetuando a morte, exceto o medo de que eu vá gritar numa multidão, exceto o medo de apendicite, exceto o medo de problemas cardíacos, a tal ponto que, sentado no seu quarto segurando o relógio e apertando a jugular, contando as batidas do coração, ouvindo o ronrom e o zunzum do seu estômago. Fora isso, bastante corajoso."
[página 22]

A obra é tão importante que ganhou prefácio de ninguém mais, ninguém menos que Charles Bukowski: "Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. (...) E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo da emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados com uma soberba simplicidade. O livro era Pergunte ao Pó e o autor, John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda. Trinta e nove anos depois, reli Pergunte ao Pó. Ele ainda está de pé, como as outras obras de John Fante, mas esta é a minha favorita porque foi minha primeira descoberta da mágica”.

O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2006, com Colin Farrell interpretando Bandini e Salma Hayek no papel de Camilla. Eu assisti ao filme na época do lançamento, mas não me lembro de detalhes. Só sei que não tinha gostado muito na ocasião e, agora que li o livro, posso afirmar que o filme descaracterizou a história. No filme, a trama gira em torno do amor não correspondido de Bandini por Camilla; bem diferente do livro, que foca nos desejos não concretizados de Bandini, em seus medos e inseguranças.

Veredicto: Leia o Livro, Não Veja o Filme.

P.S.: A procura de fotos para ilustrar o post, acabei descobrindo uma matéria muito bacana NESTE SITE (de onde tirei a foto de John Fante) sobre o documentário "Sad Flower in the Sand", que apresenta a vida de John Fante.

2 comentários:

coletivoprascucuias disse...

Livrão.

Gostei muito dele também. Fiquei meses, pra ler. Começava, parava.

Não sabia da existência do filme, fiquei lendo o post, animado. Quase me precipto e começo a buscar sobre o filme... Depois do veredito. Acho melhor reler Bandini! hahaha!

Sharon Caleffi disse...

Bom conselho, Michelle! Eu nunca passei perto do filme, todo mundo que assistiu disse a mesma coisa, que não chega perto do livro... mas o final do livro né. Tão melancólico, tão triste... dá uma angústia...