segunda-feira, 5 de março de 2012

Desafio Literário 2012: Lavoura de Corpos (Patricia D Cornwell)


“Lavoura de Corpos”, da escritora Patrícia D. Cornwell, começa quando o corpo de Emily Steiner, uma garota de 11 anos, é encontrado à beira de um lago na pacata cidadezinha de Black Mountain, na Carolina do Norte. A violência do caso abalou a comunidade local e muitos indícios do caso são semelhantes a crimes cometidos anteriormente pelo serial killer Temple Gault. No entanto, como Gault poderia ter atacado nos Estados Unidos se havia sido visto há pouco tempo na Europa? O paradeiro do assassino estaria errado ou a morte de Emily Steiner teria sido cometida por um imitador?

Para resolver o enigma, o FBI é chamado, e a Dr. Kay Scarpetta, médica legista e advogada, profunda conhecedora das obras de Gault, assume a investigação juntamente com o Capitão Pete Marino, policial experiente em homicídios e parceiro de longa data da Dra. Scarpetta. Também fazem parte da equipe Benton Wesley, chefe da unidade e especialista em análise comportamental, o Tenente Hershel Mote, policial de Black Mountain designado e que está às vésperas da aposentadoria e Max Ferguson, investigador de meia-idade do Departamento Estadual de Investigações.

Paralelamente ao caso Steiner, a Dra. Scarpetta ainda tem que ligar com a acusação de roubo de informações confidenciais de sua sobrinha Lucy, jovem de 21 anos que estagiava no Departamento de Pesquisa de Engenharia do FBI. Lucy é como uma filha para Scarpetta, e foi por meio da tia que a garota foi aceita no FBI para desenvolver um programa de identificação e busca de suspeitos (CAIN). Embora não queira duvidar da inocência de Lucy, Scarpetta sente-se acuada e confusa devido ao modo estranho como Lucy vinha agindo, somado aos problemas com bebida que começavam a surgir e a evidências que colocam a jovem no local do roubo em uma hora em que não deveria estar vagando pelo laboratório.

O livro é bem descritivo e prende a atenção. Para quem é fã de histórias policiais e de séries de investigação como “CSI” e “Criminal Minds”, é um prato cheio. Apesar dos diversos personagens e das várias subtramas que surgem no decorrer da história, é um livro fácil de ler. Para mim, o mistério sobre o assassino de Emily não durou até o final, pois já antipatizei logo com a dissimulação de alguns personagens, e, no fim, meus instintos de detetive estavam certos. Talvez seja justamente pelo fato de eu assistir a muitas séries investigativas e de ser grande apreciadora do gênero policial, não sei...

A personagem da Dra. Scarpetta é apaixonante: inteligente, bonita, mas não vaidosa, perspicaz, valente, do tipo que não leva desaforo para casa e que sabe se impor em um meio de trabalho predominantemente masculino. Há um triângulo amoroso formado por Scarpetta, Marino e Wesley. Marino, rejeitado por Scarpetta e ainda sem ter superado a separação da ex-mulher, é um poço de amargura. Suas discussões com Scarpetta são frequentes e o sarcasmo dá o tom:

“Sabe, não entendo qual é o seu problema, porra. Está deixando que as coisas fujam do controle, perdendo a manha. Talvez seja a menopausa”.
“Se é a menopausa ou qualquer outra questão pessoal, não é da sua conta. E saiba que não pretendo discutir nada disso com você. Entre outros motivos, em função de sua falta de tato tipicamente masculina e de sua sensibilidade de mourão de cerca – que pode ou não ter a ver com seu sexo, devo admitir, para ser justa. Não acredito que todos os homens sejam iguais a você. Se achasse, teria desistido deles completamente”.
(página 104)

A descrição da fazenda de corpos (ou “lavoura”, como é chamada no livro) é outro ponto que merece destaque:
“Acompanhei os dois homens ao seu bizarro porém indispensável domínio. O cheiro não incomodava tanto assim, pois o ar estava muito frio e a maioria dos cadáveres já passara pelos piores estágios. Mesmo assim, as visões eram tão anormais que sempre me faziam parar. Vi uma carroça de transportar corpos, parada, uma maca e pilhas de barro vermelho. Havia poços revestidos de plástico preto, cheios de água, onde os corpos apodreciam submersos, presos a blocos de cimento. Carros velhos, enferrujados, guardavam surpresas nos porta-malas, ou atrás do volante. Um Cadillac branco, por exemplo, era dirigido pelo esqueleto de um homem (...)

(...) Um crânio sorria para mim, sob uma amoreira, e o furo do tiro, entre as órbitas, parecia um terceiro olho. Vi um caso perfeito de dentes rosados (provavelmente causado por hemólise, uma questão ainda controversa nos simpósios de medicina forense). Havia nozes por toda parte, mas eu não me atreveria a comer uma delas, pois a morte saturava o solo e os fluidos corporais tingiam as encostas. A morte estava na água e no vento, subia até as nuvens. Chovia morte na Lavoura, e os insetos e animais se fartavam dela. Nem sempre terminavam a refeição iniciada, pois o suprimento era vasto demais.”
(página 273)

Adorei ter tido a oportunidade de ler algo dessa escritora, que é uma das melhores do gênero, e ainda poder usar essa minha escolha para o Desafio Literário 2012 - Tema de Março: Serial Killer. Para ver minha Lista de  Títulos Selecionados e resenhas anteriores, CLIQUE AQUI.

6 comentários:

Mione disse...

Ah, essa escritora ficou conhecida por contratar vários especialistas para resolver o caso do Jack, o Estripador. Depois que li essa reportagem, fiquei muito curiosa pra ler algo dela. Bacana tua resenha :D

Tenho um convite pra te fazer, caso te interesse.. Vi que, além do desafio literário, tu tem outro projeto de clássicos. Se te interessar, esse meu projeto poderia se encaixar no teu. o nome é 501 grandes escritores

o link é esse :)

http://gatopretodebiblioteca.blogspot.com/p/projeto-501-grandes-autores.html

beijo!

Gabriela Orlandin disse...

Uau! Adorei a resenha, me lembrou bastante Agatha Christie e O silêncio dos inocentes. Não sei se tem algo a ver, porque quase nunca leio livros policiais. Mas, dependendo do momento, adoro ler, e vou guardar esse nome pra esses momentos ^^

Beijos.

Karla disse...

Mi, não conhecia essa escritora. Ao contrário das séries que eu assisto, quase não leio nada com assassinos em série.
Mas é legal poder conhecer e quem sabe ler um pouco mais sobre isso.Eu ao contrário, peguei um livro super casca grossa,de difícil leitura e agora acho que vou partir pro Dexter, já assisto a série... será que o livro será bom?
Gostei da sua resenha, e entendo quando vc fala que quase sempre descobre o final! rs
bjs!

Luma Kimura disse...

Sabe que já ouvi falar muito nesta escritora, mas ainda não tive oportunidade de ler? Parece que faz bem o meu tipo!

Aline Gomes disse...

Ainda não li nada dela, apesar de ver seus livros espalhados por vários lugares.
Eu tinha um sentimento (que agora se confirmou com tua resenha): o estilo dela é MUITO parecido com o de Kathy Reichs. Não sei quem é mais velha hahaha, mas acho que não importa, vou ler alguma coisa dela depois que minha fila básica andar.

Abraço!!!

Vivi disse...

Namoro os livros da autora nas livrarias e nunca os levo para a casa. Foi bom ter lido essa resenha, um empurrão e tanto!