quarta-feira, 29 de maio de 2013

Filme: A Caça


Lucas (Mads Mikkelsen) está passando por um divórcio conturbado em que a ex-esposa restringe o tempo das visitas de seu filho adolescente, e acaba de assumir o cargo de professor do jardim da infância em uma escola local. Enquanto tenta colocar a vida nos eixos, inicia um namoro com uma colega de trabalho. Mas quando acha que as coisas estão caminhando bem, é pego de surpresa pela acusação de abuso sexual de uma das alunas. Como reagir diante dessa situação?



O filme parte do pressuposto de que “criança não mente” para mostrar como um simples caso de carência afetiva e falta de atenção pode ser distorcido, arruinando para sempre a vida de pessoas inocentes.

Para começar, criança mente sim. E muito. Mas, ao contrário dos adultos, que mentem para prejudicar, se vingar e tirar vantagem, crianças mentem para se livrar de encrenca (jogando a culpa nos outros) ou inventam coisas, seja para testar os limites ou pela imaginação fértil típica da idade. Já vi meu sobrinho de 5 anos fazer isso várias vezes.


O problema é que Klara, a garotinha que acusa Lucas de ter mostrado a ela suas partes íntimas, pega pesado ao inventar essa história em um momento de frustração, mesmo sem ter noção nenhuma da gravidade da acusação. Para ela, essa foi apenas uma forma desesperada de se fazer notar, já que não recebia a devida atenção dos pais e via no professor alguém sempre disposto a conversar e brincar.


Não há dúvida para o espectador de que Lucas é inocente, mas para os outros personagens envolvidos na história (diretora, outros professores, pais, comunidade em geral) os fatos não são tão claros. Então, imagine que você é a diretora e uma criança lhe diz que um professor mostrou seu órgão sexual. Claro que você vai acreditar nela! Não há motivo para duvidar. Ainda mais porque, infelizmente, os pervertidos estão em toda parte e, geralmente, fazem parte do círculo familiar e de amizades da vítima.


O fato é que, mesmo que saibamos que Lucas não agiu errado, não há como provar que não houve nada, assim como também não é possível provar que a garotinha mentiu. Como a investigação policial não acha nenhuma evidência de abuso nem outras ações que o incriminem, Lucas é considerado inocente e liberado. E é aí que as coisas se complicam. Se você soubesse que um acusado de pedofilia no seu bairro foi colocado em liberdade, ficaria tranquilo e deixaria seus filhos perto dele? Se sentiria à vontade ao cruzar com ele no mercado ou ao frequentar a mesma missa?


A dúvida sobre o que aconteceu ou não é algo que não se pode apagar. Mesmo que tenha sido declarado inocente pela justiça, Lucas ficará marcado para sempre. Jamais conseguirá andar pelas ruas sem receber um olhar atravessado, sem se sentir observado e julgado pelos demais moradores. E então vemos o quanto somos hipócritas, já que, enquanto assistimos ao filme, criticamos duramente os habitantes da cidadezinha que hostilizam um homem inocente, mas com certeza não pensaríamos duas vezes em fazer o mesmo se estivéssemos no lugar deles.


Aliás, o título do filme “A caça” foi uma ótima escolha, pois a mesma comunidade que comemora a transformação de menino em homem dando a ele uma licença para caçar, é aquela que, às vezes, transforma caçadores em presas.

Um filme incrível que merece ser visto.


9 comentários:

Eve Fowl disse...

Que estranho, li algo sobre esse filme essa semana, mas não imaginava que fosse assim.

É engraçado como neste filme o cinema representa fielmente a realidade. É exatamente como você disse, fácil julgar só assistindo e observando os erros dos outros, dificil mesmo é acreditar quando algo assim acontece perto de nós.

Esse é um filme que tenho que assistir!

Marcelo keiser disse...

Esse filme é bem interessante. Quando assisti, não imaginava sua força. Fiquei surpreso, já que não tinha a menor ideia do que se tratava.

abraço

Michelle Henriques disse...

Esse filme é maravilhoso!
Peguei para ver sem saber nada a respeito, esperava um filme policial. Aí começa esse enredo todo, tenso e que surpresa.
Fazia tempo que eu não me sentia tão mal vendo um filme, e eu considero isso como uma qualidade.
Beijos

Maura C. Parvatis disse...

Soube desse filme enquanto andava de busão e assistia televisão [rima não proposital,rs], aquela programação que passa sempre rende umas boas dicas de novos filmes e apresentações teatrais e musicais.

Parece ser um filme muito forte que com certeza me deixará inquieta após vê-lo... Espero conseguir assisti-lo ainda esse ano.

:*

Jacqueline Braga disse...

adoro esses enredos tensos, e fiquei ainda mais curiosa por causa do ator, amo ver a atuação dele na série Hanibal.
bjos

Tati disse...

Nossa Michelle, preciso ver já esse filme!
Não sei se você lembra, mas aqui no Brasil aconteceu algo parecido com uma escola chamada Base. Os donos foram acusados de abuso sexual por várias crianças e depois descobriram que era tudo mentira. Mas o estrago já estava feito e eles perderam tudo, a casa era alvo de constantes depredações, se não me engano precisaram sair do país.
Tem que se tomar muito cuidado com essas afirmações, até porque como você bem disse, criança mente sim, na verdade ela fantasia as coisas de acordo com a lógica dela que não mede as causas e consequências!
Um trabalho muito bem feito de psicólogos e assistentes sociais e adultos sensatos ajuda a identificar rapidamente o que é verdade e não é!
Beijos ;)
Tati

Tati disse...

Michelle, vi esse texto do Contardo e lembrei imediatamente de você! Achei interessante: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2013/05/1279092-abusos-e-incompetencia.shtml

Beijos!

Michelle disse...

Eve,
Da primeira vez que ouvi falar sobre o filme, nem dei bola. Achei que fosse algo totalmente diferente. Mas daí eu li uma crítica sobre ele na Preview e decidi que precisava assisti-lo. Não me decepcionei.

Marcelo,
Esse filme surpreende mesmo. A gente vai achando que é uma coisa, e descobre que é algo ainda pior.

Michelle,
Entendo o que você quer dizer. Neste caso, sentir-se mal é mesmo algo bom.

Maura,
Às vezes aquela TV do ônibus passa coisa interessante. Já peguei algumas dicas ali.

Jacque,
Eu só vi os 2 primeiros episódios de Hannibal e não tinha me animado muito, mas depois do filme... quero conferir o trabalho do Mads na série.

Tati,
Agora que você mencionou, lembrei do caso da escola Base. Bem isso mesmo. E acho que você vai gostar e se indignar com o filme, principalmente com o trabalho do psicólogo. E obrigada pelo texto! O Cotardo foi perfeito em sua explicação do absurdo.


Canals Martins disse...

Um filme intrigante,tenso. Aonde tem que se driblar com a nossa mente. Criança mente...e faz da mentira sua verdade. Eu trabalho com jovens há 36 anos...e hoje com 55 anos evito até o abraço, mesmo sabendo que a carência dos jovens é grande. Bom filme.