domingo, 19 de maio de 2013

Resenha: Uma Ilha de Paz



1942-43, Nova Inglaterra, EUA. Na Escola Devon, uma tradicional instituição para rapazes, uma turma especial de verão foi criada para acelerar a preparação dos jovens para a Segunda Guerra. Enquanto os alunos dos últimos anos se empenhavam no treinamento e iam para os campos de batalha, os de séries iniciais aproveitavam esse período escolar com regulamentos mais brandos para criarem suas próprias regras e jogos, instituindo assim uma ilha de paz em meio ao conflito. E é nesse paraíso perdido que conhecemos Gene e Phineas, colegas de quarto e melhores amigos que se envolvem em uma disputa aparentemente saudável, mas com resultados catastróficos...

A história é narrada por Gene, que visita a Escola Devon já adulto, 15 anos depois de formado, revivendo assim os dias que passou ali. A partir de suas memórias, ficamos sabendo como nasceu a amizade entre ele e Phineas, e como a guerra afetou o cotidiano daqueles jovens.

“... as guerras não eram feitas por gerações e suas imbecilidades especiais, mas que, ao invés disso, as guerras eram feitas por algo ignorante no coração humano”.

Gene era tímido e medroso, usava o sarcasmo para se proteger. Era muito estudioso e queria ser o orador da turma. E admirava Phineas justamente por ele ser seu oposto: destemido, provocador, eloquente e atlético – um líder nato. Juntos, fundaram a “Supersociedade de Suicídio do Período de Verão”, que nada mais era que um grupo no qual os membros deveriam desafiar uns aos outros a provar sua ousadia e coragem, participando de jogos inventados e demonstrações de força e inteligência.

Um dos desafios consistia em escalar uma grande árvore usada no treinamento dos alunos seniores, andar por seus galhos e saltar para o lago. Muitos desistiam da competição, outros superavam o medo só para conseguir status e aprovação do líder. No entanto, a soberania de Phineas é ameaçada quando Gene, sentindo-se inferior e com inveja das graças do amigo, decide fazer uma brincadeira com consequência desastrosa.

Não posso falar mais nada da história para não dar spoiler, mas a inconsequência de Gene acaba mudando sua amizade com Phineas e sua forma de ver a guerra. Para ele, o combate, que até então era apenas um evento distante, passa a ter mais significado e ele quer se alistar. Já Phineas não acredita na guerra e acha que tudo não passa de armação para manter os jovens sob controle e longe do emprego dos mais velhos. Com visões de mundo e objetivos diferentes, os amigos distanciam-se cada vez mais.

Uma coisa que notei durante a leitura foi a semelhança com o enredo de “Cotoco”: escola para rapazes, conflitos (aqui é a 2ª guerra; em Cotoco, o apartheid), a importância dos jogos e desafios para determinar os mais aptos, a quebra de regras como forma de rebeldia e amadurecimento, a cumplicidade dos garotos, um personagem meio estranho que faz revelações importantes ao protagonista (aqui, Leper – que cria caracóis e constrói diques de castor; em Cotoco, Lagartixa – garoto de saúde frágil que conversa com o gato), o medo/vergonha de assumir os sentimentos...

“Expor assim uma emoção sincera na Devon School era a coisa mais próxima ao suicídio. Eu deveria ter lhe dito, então, que ele era meu melhor também e rematado o que ele me dissera. Comecei a fazê-lo; quase o fiz. Mas algo me deteve. Talvez o tenha sido por aquele nível de sentimento mais profundo do pensamento, que contém a verdade".

Outro ponto interessante são as insinuações homossexuais: seriam Gene e Phineas mais que amigos? A inveja que Gene sentia de Phineas seria ciúme?

“Lancei minha anca de encontro à dele, apanhando-o de surpresa, e ele logo estava no chão, definitivamente, feliz. Era por isso que gostava tanto de mim. Quanto salte para cima dele, meus joelhos em seu peito, ele não poderia pedir nada melhor”. – Gene sobre Phineas, página 15

“ – Que coisa é essa?
(...)
- Isto – respondeu ele então com algum orgulho – vai ser meu emblema. Mamãe mandou- a na última semana. Já viu um pano como este, e uma cor como esta? Não é nem abotoada até embaixo. É preciso vesti-la sobre a cabeça, assim.
- Sobre a cabeça? Cor-de-rosa? Faz você parecer uma fada!
(...)
- Bem, no caso de os pretendentes começarem a bater à porta, você pode lhes dizer que estou usando isto como um emblema (...)”. – conversa entre Gene e Phineas, página 19

“Ele estava em toda parte, divertia-se imensamente, ria alto para as gaivotas que passavam. Fazia tudo que lhe viesse à cabeça para mim”. – Gene sobre Phineas, página 36

"... sem qualquer intenção de piada, o que lembro como característica saliente de Brinker, aquelas nádegas saudáveis, determinadas, não excessivamente exageradas, mas definidas e substanciais”. – Gene sobre Brinker, páginas 66-67

Sinceramente, não sei. Em certos momentos, achei que era apenas ciúme entre amigos, em outros imaginei que fosse ciúme de apaixonados, e às vezes pensei que fosse apenas inveja. Não é relevante para a história, já que, seja qual for o caso, o desfecho seria o mesmo. Mas dá para gerar uma boa discussão, né?

E para quem quiser discutir esse e outros pontos do livro, é só chegar no chat do Charlie's Booklist hoje, lá pelas 19:00 (a gente avisa quando for começar lá no grupo do Facebook, viu?)

"Uma Ilha de Paz" é citado no filme "Sideways - Entre umas e outras".

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Esta postagem faz parte das leituras do Charlie's Booklist - Abril.



Este post faz parte do Desafio Literário 2013 - Mês de Maio: Livros Citados em Filmes. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DL2013, clique AQUI. 



5 comentários:

Luara Cardoso disse...

Oi Michelle!
Esse livro parece ser bem diferente das leituras mais leves e chick-lits que eu estou acostumada. Mas é sempre bom ter uma leitura diferencial.
Essa tendência homossexual que o autor deixa jogado no enredo parece ser bem interessante também, até porque é uma época que o preconceito era bem maior, né? Ele poderia ter explorado melhor.

Um beijo,
Luara - Estante Vertical

Michelle disse...

Luara,
O livro é bem legal, justamente por se passar em uma época diferente e mostrar como pensavam/agiam as pessoas naquele tempo. Acho que a questão da homossexualidade dos personagens foi intencionalmente deixada em aberto, como se o narrador estivesse confuso e ele mesmo não soubesse como lidar com isso. Rendeu uma boa conversa ontem, viu?

Maura C. Parvatis disse...

Oi, Michelle!

Após tentar achar muito "Uma ilha de paz", desisti... Mas a galera do grupo do Charlie's Booklist começou a postar os capítulos e putz, quase chorei quando soube! Comecei a ler por lá :)
Gostei bastante da resenha, fiquei ainda mais empolgada com o livro, ia participar da discussão mas tive que ir no aniversário de uma tia, detalhe, havia esquecido da data, só me lembraram na sexta à noite :X

Beigos!

Michelle disse...

Oi, Maura!
Esse livro foi bem complicado de achar. Conseguimos esgotar todos os exemplares dos sebos! rs
Se quiser o meu emprestado, dá um toque, OK?
bjo

Lígia disse...

Não conhecia esse livro, parece ser bem legal. Vai para a lista de leituras!