segunda-feira, 13 de maio de 2013

Resenha: Inés da Minha Alma



Inés Suárez é uma jovem e humilde costureira espanhola que vai para o Novo Mundo atrás de seu marido, que havia partido há tempos em busca de fortuna. Chegando às Américas, se depara com um continente bruto e selvagem, banhado em sangue pela ganância dos colonizadores que desejavam dominar as novas terras, explorar suas riquezas naturais e escravizar os nativos. Mulher destemida e determinada, Inés foi peça fundamental na fundação de Santiago do Chile, ao lado do amante Pedro de Valdivia. Uma obra que mistura ficção e fatos históricos para narrar as aventuras da conquista espanhola do Chile vista de um ângulo que historiadores convenientemente fazem questão de esquecer: o das mulheres.

“Fibra é uma virtude apreciada nos homens, mas considerada um defeito em nosso sexo. As mulheres com fibra botam em perigo o desequilíbrio do mundo, que favorece os homens, por isso eles tratam de vexá-las e destruí-las. Mas elas são como as baratas: quando você esmaga uma, correm duzentas pelos cantos”.

Ao longo de seis capítulos, Inés, aos setenta e poucos anos e à beira da morte, nos conta a história de sua vida e a da colonização do Chile por meio de cartas escritas a sua filha, Isabel. É assim que conhecemos um pouco de sua adolescência na cidade espanhola de Plasencia e ficamos sabendo como ela conheceu o primeiro homem de sua vida: Juan de Málaga, aquele que a iniciou nos prazeres carnais e com quem se casou. No entanto, o casamento não foi um mar de rosas e Juan vai para as Américas atrás de riqueza.

Anos depois, quando novas expedições ao novo continente estavam sendo organizadas, Inés decide que era tempo de explorar novos ares e, usando a desculpa de que precisava encontrar o marido, parte para a terra dos sonhos. Todavia, o que encontra, já no próprio navio em que viajava, não poderia ser mais diferente de uma fantasia: fome, enjoo, doenças, ataques sexuais. Na terra nova, mais choque: clima absurdamente quente e úmido, insetos, animais selvagens, novos hábitos e comidas.

Entretanto, a todas essas novidades é possível se adaptar. A única coisa que jamais cessava no Mundo Novo eram as batalhas entre os espanhóis invasores e os nativos, que resistiam bravamente e preferiam morrer a ser dominados. A sede por riqueza também gerou inúmeras traições e mortes entre os próprios colonizadores. O derramamento de sangue não tinha fim.

“Dizem que a gente se acostuma com tudo, mas não é verdade, nunca me acostumei com esses gritos espantosos. Inclusive agora, em minha velhice, depois de ter fundado o primeiro hospital do Chile e de levar uma vida trabalhando como enfermeira, ainda ouço os lamentos da guerra.”

O interessante é saber que, mesmo em meio ao caos e violência reinantes, havia espaço para o amor. Pois não tendo encontrado o marido (como já era esperado), Inés se recusa a voltar para a Espanha e arruma um jeito de permanecer no Peru, onde conhece o segundo homem que vira sua vida de cabeça para baixo: Pedro de Valdivia. Ao lado dele, ela conhece a paixão e se dispõe a seguir com ele desbravando territórios inóspitos até chegar ao Chile, onde fundam uma nova cidade e se estabelecem com muitas dificuldades.

“Como nos abraçamos tão cedo? Quem esticou a mão primeiro? Quem buscou os lábios do outro para o beijo? Certamente fui eu. (...) Pedro retrocedeu, rígido, pálido, até dar com as costas contra a parede. Que mulher sensata fala assim a um desconhecido?”

Depois de viver 10 anos com o amante (ele era casado com uma jovem deixada na Espanha), Inés sofre uma grande decepção, incluindo uma tentativa de golpe político para tirar seus bens e seu poder, e acaba separada de Valdivia. O que poderia ser um fim de caso devastador acaba se transformando na chave para um futuro feliz: Inés casa-se então com Rodrigo de Quiroga - o homem que lhe mostrou o amor e lhe deu Isabel, a filha não-biológica a quem ela se dedicou e amou desde o primeiro momento.

O que mais chama a atenção no livro é a força de Inés e suas atitudes ousadas que desafiavam as regras machistas impostas: ela enfrenta os preconceitos trabalhando para pagar seu próprio dote (o avô havia decidido que ela deveria ficar solteira para cuidar dele na velhice, reservando o casamento apenas à irmã de Inés, Asunción, que era mais bonita e “tinha mais chances” de conseguir um bom partido), revida a primeira tentativa de agressão do marido (eliminando assim futuras tentativas), aprende a ler (um insulto aos machos de plantão), impõe sua presença no navio (deixando a tripulação horrorizada por “atrair tempestades”, conforme a crença dos marinheiros), não admite ser culpada pelas investidas sexuais dos soldados (que, como sempre, usavam a desculpa da “tentação feminina”).

“Os homens desejam o que não têm. Eu era a única espanhola da expedição, a amante do chefe, visível, presente, intocável e, por isso mesmo, cobiçada. Muitas vezes me perguntei se fui responsável pelas ações de Sebastián Romero, do alferes Núñez ou desse rapaz, Escobar. Não encontro a falta em mim, fora ser mulher, mas isso parece ser crime suficiente”.

Inés tratou dos doentes, usou seu “dom” de encontrar água no deserto e salvou os expedicionários da morte por desidratação, construiu edifícios, cuidou dos animais, pegou na enxada para cuidar das plantações, cozinhou o pouco alimento que tinham e fez questão de alimentar a todos igualmente, aprendeu a manejar armas e lutou lado a lado com os soldados. E tudo isso foi omitido dos livros de História por anos. Felizmente, o erro foi corrigido. Isabel Allende tem grande participação nisso. Só imagino quantas “Ineses” não permanecem anônimas, tendo seus feitos intencionalmente omitidos simplesmente por terem nascido com o sexo “errado”.


Este livro é uma cortesia do grupo Lendo Entre Amigas

5 comentários:

Patrícia Di Carlo disse...

Eu sempre gostei demais da escrita da Isabel Allende... Foi através dela que descobri o realismo fantástico, ou melhor, uma parte dele. Mas agora quero muito ler esse, pois adorei o que contou sobre, Michelle! ;oD

Xerinhos
Paty

Eliana Lee disse...

É uma vergonha total, mas faz anos que não leio nada da Allende. A ultima vez foi A casa dos espíritos, ainda adolescente =P rs

Michelle disse...

Paty,
Esse livro é exceção entre as obras da Allende e não utiliza realismo fantástico. Mesmo assim, não deixa de ser impressionante ;)

Eliana,
E eu que ainda não li "A casa dos espíritos"? Preciso tomar vergonha na cara e ler logo...rs

Melissa Padilha disse...

Oi!!
Poxa é uma vergonha falar isso mas não li nada da Isabel ainda, só tive contato com a "obra" dela através do filme adaptado de uma das histórias dela, A Casa dos Espíritos, e desde então sou muito curiosa para ler os livros dela. Já consegui 2 ebooks estão na fila de leitura logo mais conheço um pouco mais da obra dela, que parece ser muito boa.
bjo
Melissa Padilha
De Coisas por Aí

Michelle disse...

Melissa,
Eu vi "A casa dos espíritos" faz um tempão, não lembro de detalhes, só que gostei da história. Pretendo ler o livro e rever o filme ;)