sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Filme: O Abutre


Lou (Jake Gyllenhaal) é um jovem que vive de pequenos delitos e, uma noite, se depara com o universo desconhecido e sem escrúpulos dos cinegrafistas freelance que fornecem notícias para o jornalismo sensacionalista. Com a ajuda de Nina (Rene Russo), uma veterana da área, vai penetrando cada vez mais nesse submundo.


No início do filme, Lou é um cara solitário e um tanto ingênuo, que passa os dias trancado em seu minúsculo apartamento, navegando na internet, e que tem como única obrigação, cumprida rigorosamente, aguar a planta. É por acaso que ele cruza o caminho de uma equipe de cinegrafistas especializada em ‘notícias sangrentas’: acidentes de trânsito, violência urbana, assaltos, catástrofes, etc. Tudo o que possa gerar vítimas, de preferência em estado crítico, é matéria para esses profissionais, que, graças a exploração da desgraça alheia, são conhecidos como ‘abutres’.



Lou fica fascinado com aquele universo, até então desconhecido por ele. Decide que é isso o que quer fazer da vida. Faz mais alguns pequenos furtos, vende o material e consegue o equipamento mínimo necessário para dar início ao seu novo empreendimento. Embora não tenha tido uma educação formal, Lou é extremamente inteligente e, depois de estabelecer seu objetivo, se dedica com afinco a aprender tudo o que pode sobre a atividade, seja assistindo obcecadamente aos noticiários matutinos que exibem as notícias sensacionalistas, se informando sobre filmagem e edição, fazendo cursos on-line, consumindo avidamente livros de gerenciamento e administração e, claro, observando os cinegrafistas e botando a mão na massa.


Sua personalidade começa a se transformar assim que Lou ingressa nesse submundo. Incrível como só com a mudança para uma mentalidade mais produtiva já tem um grande efeito sobre ele. Antes mesmo de conseguir realizar suas primeiras imagens, já sai à procura de um assistente, sua postura muda com a autoconfiança recém-adquirida, ele deixa a timidez de lado e se torna um verdadeiro líder-executivo-orador. Assim, depois de estabelecer um contato com Nina, a diretora do noticiário da manhã, Lou passa a ter planos cada vez mais grandiosos e a agir de um modo cada vez mais assustador.


Achei o filme incrível e fiquei muito decepcionada por Jake Gyllenhaal não ter sido indicado ao Oscar de Melhor Ator. Ver sua metamorfose na tela é assistir a uma verdadeira aula de interpretação: ele vai se transformando diante do espectador - a postura, a voz, as atitudes, o olhar alucinado. Desde o início até o fim do filme, passei do sentimento de pena (pelo protagonista ser tão azarado e explorado pelos outros) à repugnância (pela forma como ele trata o assistente, pela chantagem que faz com Nina, pelo modo invasivo e totalmente desrespeitoso com que trata as vítimas). Resumindo: um personagem nojento interpretado por ator brilhante.


O filme como um todo é excelente e bota o dedo na ferida ao escancarar o comportamento doentio da sociedade atual, que se diverte com o sofrimento alheio, que vibra com o sangue que escorre na tela (e, consequentemente, nas ruas – quem aí nunca viu alguém sacar o celular para filmar cenas de acidente – nem que seja o tombo de alguém – em vez de ajudar?), que encara tudo como uma disputa pelo maior número de corpos, o maior volume de sangue, a maior quantidade de balas disparadas...


É tudo muito triste e incômodo porque, se os abutres se alimentam do sangue das vítimas, a indústria da notícia, com sua falta de escrúpulos, estimula o show de horrores ao exibir tais cenas em destaque, e, consequentemente, o espectador também tem culpa, por dar audiência a esse tipo de coisa e, muitas vezes, compartilhar e exaltar o comportamento predatório. É uma bola de neve e ninguém sai impune dessa desvirtuação do caráter humano.

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Oscar 2015: Indicado na categoria “Melhor Roteiro Original".

Tenso, empolgante, trágico... hipnótico! Veja agora!


Trailer legendado:

3 comentários:

Nice disse...

Oi Michelle...
concordo 100% com você.Filme ótimo e o Jake merecia a indicação ao Oscar de melhor ator.

Maria Clara disse...

Odeio ver injustiça e podridão... então...
...detestei o filme!!!

Fernanda Glinski disse...

por que o texto é igual a este: http://blog.opovo.com.br/entreaspas/resenha-critica-de-o-abutre/ ?????????????????????