segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Resenha: Middlesex


Rapaz hermafrodita que foi criado até os 14 anos como menina escreve sua biografia. Ele vai misturando a história dos avós, pais e tios com a própria história e nos leva pelo mundo (desde a fuga de seus avós da Grécia para os EUA por causa de uma guerra com os turcos, passando por vários momentos históricos na América). Calíope/Cal Stephanides nos conta sobre sua infância, sobre os amores e descobertas adolescentes, sobre sua condição hereditária, sobre seu novo sexo e todas as adaptações necessárias, fala de guerras, de mudanças sociais, de preconceitos, mantendo o ar descontraído mesmo quando aborda os assuntos mais sérios.

Comecei a leitura sem saber ao certo o que esperar. Do Jeffrey Eugenides, apenas “As Virgens Suicidas” estava na minha lista, embora eu sempre visse “Middlesex” entre os livros da Rory Gilmore e ficasse um pouco curiosa. Como o título foi o escolhido para o Leituras Compartilhadas dos Espanadores, decidi ler. E que surpresa maravilhosa! Fui fisgada pela escrita envolvente e despretensiosa do autor logo nas primeiras páginas.

Embora alguns leitores possam ficar decepcionados com o fato de o protagonista falar muito pouco de si mesmo (o livro é dividido em 4 partes e só começamos a conhecer melhor Calíope/Cal na parte 3), comigo essa estratégia deu muito certo. Antes de falar sobre quem é, Cal preferiu nos apresentar à sua família, já que somos todos a continuidade de nossos antepassados. No caso dele, não foi apenas sua origem grega que teve influência em sua personalidade: o histórico genético foi fundamental para explicar sua condição de hermafrodita.

Na verdade, para mim, Cal acaba sendo coadjuvante de sua própria biografia. A história de seus avós, Esquerdinha e Desdêmona, foi a parte que mais prendeu minha atenção, pois são personagens muito cativantes e bem construídos. O primeiro é um homem teimoso e trabalhador; a segunda é uma mulher de fibra, batalhadora, que supera preconceitos alheios e próprios em nome do amor pela família. É ela quem faz a ligação entre o histórico familiar dos Stephanides e a nova fase da vida de Cal, é nela que reside a chave do segredo dos genes defeituosos e a força para seguir em frente.

“Middlesex” é um livro que fala de tantas coisas que eu teria que escrever dezenas de parágrafos para tratar de cada uma delas. Mas, além de ser enfadonho, isso estragaria as surpresas guardadas no livro. Tudo o que eu posso dizer no momento é que o livro virou um dos meus preferidos e, apesar de ter sido a primeira leitura de 2015, sinto que dificilmente outra tomará seu lugar este ano. Que venham “As virgens suicidas” e “A trama do casamento”!

“Desde o princípio houve um estranho equilíbrio entre meu avô e eu. Quando dei meu primeiro grito, Esquerdinha ficou mudo; e, enquanto ele gradualmente ia deixando de enxergar, de sentir gostos, de escutar, de pensar e até de recordar, eu começava a ver, experimentar e lembrar tudo, mesmo o que não tivesse visto, comido ou feito. Já latente dentro de mim, como o futuro saque de quase duzentos quilômetros por hora de um prodígio do tênis, estava a capacidade de comunicação entre os gêneros, de enxergar, não com o monóculo de um dos sexos, mas com o estereoscópio de ambos.”

Engraçado, tocante, trágico, encantador. Tudo o que se espera de uma história inesquecível.


>> A discussão de "Middlesex" será na próxima quinta, dia 22, na Livraria da Vila Fradique Coutinho, às 19:00. Apareçam!


4 comentários:

Lígia disse...

Gostei muito dos dois livros do Eugenides que li e estou louca para ler esse! Só tenho ouvidos elogios por enquanto :)

Filipe Mafagafo disse...

É uma grande obra mesmo, acho que todos vão gostar muito durante o leituras :D

Lua Limaverde disse...

Mi, como você eu também me envolvi mais com a primeira metade, mas claro que o livro inteiro é maravilhoso, não vejo a hora de ler o As Virgens Suicidas, tenho certeza que vai ser no mínimo ótimo. A Desdêmona me lembra um pouco a Úrsula do Cem Anos de Solidão, não na personalidade mas no que ela representa pra família etc. Beijos!! ;-)

Mariana Fontana Szewkies disse...

Oi Micheli!
"Middlesex" é o único livro do Eugenides que eu ainda não li.
Cogitei ler,tanto porque acho a premissa muito interessante, como porque sei que Eugenides nunca decepciona, mas eis que li as primeiras páginas e, diferente de você, não fui fisgada e não me animei a continuar. Quem sabe em outro momento?
Não deixe de ler "A Trama do Casamento" e "As Virgens Suicidas" :) Ambos são bons, mas "Virgens" é maravilhoso!! De uma sensibilidade impressionante :)
Beijos
alemdacontracapa.blogspot.com