segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Resenha: O Lobo


História de um lobo que, na velhice, tem que enfrentar não apenas as dificuldades do inverno rigoroso em busca de comida, mas também seus medos e a evidente perda da capacidade física decorrente da idade.

Fazia tempo que “O Lobo” estava na minha estante. Lembro que solicitei em uma troca por pura curiosidade. Nos últimos dias de dezembro, eu estava procurando um livro curto, para ler despretensiosamente enquanto não iniciava as leituras da lista de 2015, e achei que o livrinho seria perfeito. De fato, devorei as páginas em algumas horas, angustiada para saber o que aconteceria com o lobo, embora, no fundo, eu já soubesse como tudo acabaria.

A trama é extremamente simples e está resumida ali no parágrafo inicial. O diferencial do livro é fazer do lobo o protagonista-narrador, nos apresentando todos os seus sentimentos e inquietações. As descrições são riquíssimas e, durante a leitura, conseguimos imaginar sem dificuldade o que o lobo vê: é como se olhássemos através de seus olhos. E tudo isso da perspectiva de um animal “real”, não como se o lobo tivesse a personalidade humana ou fosse um personagem de história infantil. Não, o lobo é um caçador solitário que luta pela sobrevivência.

Quando eu digo que enxergamos o mundo pelos olhos do lobo, quero dizer que passamos a perceber coisas que, nós, como humanos, geralmente ignoramos: o chão forrado de gravetos que espetam, o alívio do solo fofo de terra úmida, a grama congelada, as árvores altíssimas com suculentos pássaros fora do alcance, filhotes em cavernas com potencial para se tornarem jantar, o cheiro do medo na presa, o odor dos humanos como um sinal de perigo, o sangue que representa a morte e possibilita a vida.

Para o lobo, cada ação conta e cada movimento pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Sentimos sua excitação ao farejar uma presa, sua emoção durante a caçada, o peso da idade sobre o vigor físico e a velocidade, as consequências desastrosas de um erro de cálculo, a desconfiança ao estabelecer parceria com outro animal, a incerteza diante do desconhecido, a fome arrasadora que faz com que o lobo deixe sua prudência de lado e vença o medo para não perecer.

Durante sua jornada, o lobo passa por uma transformação física e mental e analisa toda sua existência, relembrando os bons momentos e se arrependendo por ter sido ingênuo algumas vezes e superconvencido em outras. Nada como um lobo para nos ensinar a ser mais humanos...

“Observo essa cena desagradável esperando meu coração se acalmar e minha respiração se regularizar. Nunca corri tanto! Quanta força ainda tenho para subir correndo o morro! Acho que vou voltar para a floresta, mas hesito. Quero ter certeza do que estou vendo lá embaixo. Quero ter certeza de que é bom o fato de eu ainda estar vivo aqui neste morro, e então olho de novo para a casa e para os minúsculos vultos andando por ali, esperando que se forme dentro de mim uma sensação de bem-estar. Mas nada acontece, porque sei que aconteceu alguma coisa muito errada – e, quando estou prestes a dar meia-volta, percebo o que é: eu estava com medo. A força que senti não era a minha, mas sim algo impulsionado em mim pelo homem. E, enquanto estou aqui parado, hesitando, vivo e capaz de viver para ter outra oportunidade de matar, é a primeira vez que ajo como a caça, sentindo a própria existência em vez de querer arrancar a vida de outro”.

Trama simples, porém ágil. Impossível não vermos no lobo nossos próprios defeitos. Recomendo.



6 comentários:

Aline Aimée disse...

Nunca tinha ouvido falar do livro, mas você conseguiu me deixar muito curiosa!
Parece o tipo de coisa que eu adoraria ler.
Vou procurar!

Beijo!

Gláucia disse...

Mi, também estou com esse livro há um tempão na estante, só fui me lembra dele quando vi que vc estava lendo. Sua resenha me faz achar que vou gostar muito do livro, me lembra um infantil que li há séculos e que me mexeu muito comigo: Memórias de um Vira-Lata, onde o narrador tb é o animal e agente sofre horrores com o bichinho.
Também me lembrei que tenho encalhados na estante O Chamado Selvagem e Caninos Brancos, quem sabe não emende todos eles?

Marta Pinto disse...

Fiquei curiosa, Mi.
Vou anotar mais esta dica.
Ah! E o visual novo do blog, bem legal.

Blog Elas Leram disse...

Eu tinha ficado bem interessada em comprar esse livro porque ele andou com um precinho muito bacana no ano passado. Não sei porque, acabei deixando passar e não comprei. Agora lendo o post, me bateu de novo a vontade de lê-lo. E pelo que vi, ele é bem o que eu imaginava, nos colocando no lugar o lobo-narrador e nos descobrindo nele. Acho que vou atrás de novo rs

Jéssica _ disse...

Nossa, que livro interessante! Fiquei com vontade de lê-lo. Parece um livro muito gostoso de ler.

Michelle disse...

Aline,
Foi uma boa surpresa. Se tiver oportunidade, leia sim. :)

Gláucia,
Li 'Caninos Brancos' na adolescência e gostei muito. Me acabei de chorar... Seria bacana ler os 3 na sequência.

Marta,
Tks! Gostei da escrita do autor. Acho que você ia curtir também.

Eliane,
Lembro dessas promoções. Se encontrar de novo com desconto, vale a pena comprar. :)

Jéssica,
É meio angustiante, mas impossível parar antes do final.