sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Resenha: Memorial do Convento


Dom João V, rei de Portugal, prometeu construir um convento na cidade de Mafra se a esposa conseguisse engravidar e lhe desse um herdeiro. A história conta a atribulada construção do convento ao longo de anos e seus efeitos sobre o povo português. Paralelamente, acompanhamos o romance entre Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, que, juntamente com o Padre Bartolomeu de Gusmão, desafiam a Inquisição para construir uma passarola e voar.

Como vocês devem saber, estou participando do Projeto Ler Saramago, que consiste em ler as obras do autor português em ordem cronológica. Embora o escritor seja um dos meus favoritos, até agora nenhum livro que li no projeto tinha me arrebatado. Isso finalmente aconteceu com “Memorial do Convento”, o quarto dessa lista.

A construção do convento de Mafra é o fio condutor da trama. O que era simples empolgação e cumprimento de promessa por D. João V se transformou em uma obra faraônica, que consumiu as riquezas do império português (grande parte vinda diretamente de suas colônias) e ceifou a vida de milhares de trabalhadores. Ao rei já não importava mais honrar sua palavra: ele queria deixar sua marca na história. Em meio aos delírios de grandeza, ele aumentava constantemente o número de religiosos que seriam abrigados no convento, exigia sacrifícios dos trabalhadores, ordenava o aceleramento das obras para que pudesse ver o resultado do enorme monumento que mandara erguer, no fundo, para si mesmo.

Enquanto isso, acompanhamos a história de Blimunda, moça de olhos verdes-azuis-cinzas que tem o dom de enxergar as pessoas por dentro. Por ter poderes semelhantes, sua mãe é levada pela Inquisição. Enquanto a filha assiste a tudo, com uma indicação da mãe, Blimunda olha para o lado e, em meio a uma multidão, encontra sua alma gêmea, Baltasar. O relacionamento dos dois nasce de forma mágica e eles imediatamente sabem que foram feitos um para o outro. Não questionam seus sentimentos, não precisam de regras sociais para validá-los. Simplesmente aceitam com naturalidade e seguem vivendo juntos desde então. É tão fantástico e inverossímil que a chance de eu desgostar da dupla era imensa, mas, de alguma forma, tudo parece se encaixar nesse livro que tem uma aura de fantasia.

Quem logo se junta à dupla é o Padre Bartolomeu de Gusmão, que tem como objetivo construir uma passarola para explorar o céu e as nuvens. Mesmo tendo financiamento das altas esferas do governo, ele precisa manter seu projeto em segredo, já que a Igreja não gostaria nem um pouco de vê-lo cometer a blasfêmia de tentar voar. Assim, Baltasar e Blimunda embarcam na aventura de criar o equipamento e botá-lo no ar. Como descobrimos mais adiante, o combustível da engenhoca é bastante inusitado e dependia completamente da participação de Blimunda. Mais uma vez, engenhoso e surreal.

Resumindo, uma história deliciosa que me prendeu do início ao fim, personagens adoráveis, uma mistura de fatos e ficção com um clima onírico. Finalmente reencontrei o Saramago que eu tanto gosto e, de quebra, conheci o casal mais incrível da literatura. Eu, que nunca sei o que responder em tags sobre casais, agora já tenho uma resposta para dar.

"Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e, quando ela ferveu, deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isso sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados."


Saramago consegue criar com maestria uma trama com doses ideais de romance, fantasia, história, crítica social e religiosa. Perfeito!

Esta leitura faz parte do Projeto Ler Saramago, criado pela Cláudia, do blog A Mulher que Ama Livros, que consiste em ler todos os romances do autor português em ordem cronológica. Nossa próxima leitura será: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Estão todos convidados!
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Veja a resenha da Cláudia AQUI.

Um comentário:

Filipe Mafagafo disse...

E vem aquela vontade louca de ler esse livro. Da pra ver que tem aquele toque Surreal de Saramago que eu adoro :)

Beijos ;)