quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Leia o Livro, Veja o Filme: A Hora da Estrela

O LIVRO: A Hora da Estrela

Acompanhamos as angústias do escritor-narrador que precisa retirar a história de Macabéa de dentro de si. Enquanto seguimos com ele em seu processo de criação, ficamos conhecendo a história da nordestina órfã, magra e feia, criada a cascudos pela tia e enviada para o Rio de Janeiro para trabalhar como datilógrafa. Lá, continua à margem de tudo, vivendo isolada em seu mundinho devido à sua incapacidade de se comunicar. Quando começa a namorar o metalúrgico Olímpico, Macabéa acredita ter encontrado seu final feliz, mas o destino é um sacana que não quer facilitar as coisas para ela.

Macabéa e Olímpico formam um casal triste que estava fadado ao fracasso desde o início. Ambos representam os migrantes que chegam cheios de ilusões às cidades grandes e acabam engolidos pelo caos, por uma realidade dura, por pessoas insensíveis e aproveitadoras. No entanto, embora tenham origem humilde semelhante, Macabéa é totalmente submissa, do tipo que não reclama de nada, que não tem grandes expectativas, que nem sabe o que quer dizer felicidade - para ela, bastaria encontrar seu príncipe encantado e tudo se resolveria. Olímpico, por sua vez, é um cara que não leva desaforo pra casa (e, como gosta de lembrar, até já matou um cara por isso), é ambicioso e quer sempre o melhor (adora exibir seus dentes de ouro e critica Macabéa constantemente por sua passividade).

Eu já tinha lido esse livro na adolescência e gostado bastante, mas não lembrava dos dramas do escritor-narrador. Para mim, só o que ficou foi a inocência de Macabéa, seus sonhos de menina simples que precisa guardar para si mesma, já que os outros não a compreendem e ela tem grande dificuldade de se expressar. Além disso, só mesmo em sua mente é possível externar suas vontades, já que, no trabalho, não dá tempo e, no quartinho minúsculo que ela divide com outras moças tão invisíveis quanto ela, não há privacidade nem espaço físico.

A releitura de ‘A hora da estrela’ me permitiu prestar atenção à narrativa peculiar da autora, que cria um alter ego masculino para ser levada a sério e para discutir  o próprio processo de escrita. Rodrigo S. M., o autor-narrador, escreve para se livrar de um incômodo, de um personagem que pede para nascer. O interessante é que o autor nutre sentimentos antagônicos por sua criação: ele a abomina, tem raiva e nojo dela, mas, ao mesmo tempo, sente pena e quer protegê-la. Provavelmente a raiva e o nojo venham do fato de o escritor ser de proveniente de uma classe abastada, e, para dar vida à personagem, começa a se comportar como ela: passa a usar roupas velhas, a deixar a higiene de lado, a ter hábitos mais modestos. Por fim, ele se entrega e assume seus temores diante do desfecho trágico que se anuncia.

“Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”.

Foi uma ótima experiência reler essa história tão tocante. Macabéa continua sendo uma personagem querida para mim. Recomendo a leitura, sempre.

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O FILME: A Hora da Estrela

O filme transporta a história do Rio de Janeiro para São Paulo. Saem os passeios pelos arredores do cais, entra a fascinação de Macabéa pelo metrô e pelo universo subterrâneo. Independente da cidade, Macabéa continua perdida em um mundo que não sabe decifrar, permanece invisível, não consegue se encaixar.


Assim como já tinha lido o livro, eu também já havia assistido ao filme. E, como sempre acontece nesses casos, lembrava perfeitamente de algumas cenas (como aquela em que Olímpico faz Macabéa voar, logo abaixo dos pilares de suporte da linha do metrô, ou quando a protagonista cruza a pé o viaduto que passa por cima das linhas férreas – são lugares nem um pouco bonitos e que já fizeram parte da minha rotina por um tempo). Marcélia Cartaxo, aliás, será para sempre o rosto da Macabéa que povoa minha mente. A atriz personifica perfeitamente a garota frágil e sonhadora criada por Clarice Lispector.


Gosto muito do filme como um todo, mas quero destacar meus momentos preferidos, como aqueles em que a invisibilidade de Macabéa é evidenciada (ela fica toda acanhada ao perceber um homem do outro lado do balcão olhando fixamente em sua direção – mas o homem é cego; ela se encanta ao ver Olímpico pela primeira vez, posando para um retrato - mas passa pela frente da câmera justamente no momento em que o fotógrafo ia disparar o flash e, portanto, é repreendida; ela fica embevecida ao notar que um segurança do metrô não tirava os olhos dela – mas, quando ele se aproxima, é para dar uma bronca e pedir que ela não ultrapasse a faixa amarela).


Outro momento marcante, para mim, é quando Macabéa inventa uma desculpa no trabalho para poder ficar em casa e ter o quarto só para si. A alegria de ter privacidade e poder dar asas à sua imaginação é contagiante e, provavelmente, um dos raros momentos de felicidade genuína de Macabéa em todo o filme. Um momento único em que ela pode ser ela mesma, sem recriminações ou olhares tortos.


Considero o filme uma adaptação excelente, que consegue captar a essência do livro sem se prender a detalhes e formatos. E, para quem não conseguiu decifrar a sutileza do título durante a leitura, o filme não deixa dúvidas sobre o significado da estrela.

Um dos poucos casos em que o filme é tão bom quanto o livro. Recomendo muito!

Este post faz parte do Projeto Grandes Livros no Cinema. Para ver a lista de títulos com os links das resenhas feitas, clique AQUI.

2 comentários:

Lígia disse...

Adoro o livro! Ainda não vi o filme, mas parece ser muito bom :)

Daniele disse...

Li esse livro há tanto tempo, e até hoje ele é um querido para mim. Adoro! Beijos!

http://the-dearest-room.blogspot.com.br/