terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Resenha: O Homem que Ri


Gwynplaine foi vendido quando criança a uma trupe de 'comprachicos' e teve seu rosto deformado, fazendo com que parecesse estar sempre sorrindo. Em uma noite de nevasca, encontra uma menininha cega quase congelada junto à mãe morta, a resgata e consegue abrigo na carroça de Ursus, filósofo, conhecedor de ervas e poções e artista mambembe. Quando crescem, Gwynplaine e Dea passam a se apresentar com Ursus e ficam relativamente famosos. A fama de Gwynplaine, no entanto, fará com que descubra sua origem abastada, mas isso colocará em risco sua vida e seu amor por Dea.

A primeira coisa que chamou minha atenção quando iniciei a leitura foi a magnitude da tristeza e do horror que o autor imprime ao texto. Para Victor Hugo, "desgraça pouca é bobagem". Imaginem: logo nas primeiras páginas, o pobre Gwynplaine é vendido, deformado, abandonado à noite em meio à nevasca, enxotado enquanto procurava abrigo, se depara com a bebezinha cega, a envolve nos poucos trapos que vestia para que ela não congelasse e quase morre de fome, frio e cansaço enquanto buscava ajuda. Já deu para perceber, então, que seria uma tragédia daquelas.

A segunda característica que notei foi a habilidade do escritor em utilizar a ironia e o sarcasmo, fazendo rir em situações graves e gerando incômodo ao criticar sem piedade a sociedade (inglesa, no caso), a monarquia e a igreja. Da boca de Ursus, o andarilho falastrão, saem os mais brilhantes impropérios, mas tudo em um tom divertido – o mesmo que ele usa com as crianças que acolhe: xingando e amaldiçoando, mas, no fundo, se esforçando ao máximo para dar uma vida digna aos dois miseráveis, amando-os como um pai. Sintam a genialidade de Victor Hugo: ele cria um homem chamado Ursus e um lobo chamado Homo.

“Ursus transmitira a Homo uma parte de seus talentos: ficar em pé, diluir a cólera em mau humor, grunhir em vez de urrar, etc.; por sua vez, o lobo ensinara ao homem o que sabia: prescindir de teto, prescindir de pão, prescindir de fogo, preferir a fome numa floresta à escravidão num palácio”.

“O Homem que Ri” é uma crítica aos costumes e aos poderosos, uma aventura empolgante, uma aula de história e também uma trama romântica. O amor entre Gwynplaine e Dea já é previsto na primeira noite que passam na carroça de Ursus, como se estivesse escrito nas estrelas. Conforme crescem, os apaixonados se aproximam cada vez mais, só que Gwynplaine, quando passa a entender o quanto seu rosto é grotesco, se ressente e se afasta de Dea. Ela é, para ele, inalcançável, a síntese da beleza, o amor idealizado e puro. Quando, em determinado momento, Gwynplaine percebe que uma duquesa está interessada nele, vê a possibilidade de consumação de um amor carnal, e fica dividido entre as duas mulheres. Sendo uma obra de Victor Hugo, já dá para imaginar que isso só pode dar errado, né?

Esse foi um livro que li surpreendentemente rápido, apesar de suas mais de 700 páginas. Achei os personagens muito bem desenvolvidos, especialmente Ursus, o meu preferido. A mistura de história de amor com aventura cheia de intrigas políticas me agradou muito. No entanto, algumas coisas me incomodaram bastante: descrições excessivamente detalhadas e desnecessárias (ao meu ver). Por exemplo: páginas e mais páginas de descrição de uma embarcação específica, seu funcionamento, sua tripulação – para mim, bastaria dizer que eles estavam em um barco X; outro momento desses foi a explicação minuciosa do sistema judiciário inglês – bastava dizer que o personagem foi a julgamento e condenado. O uso demasiado de termos em idioma estrangeiro também me irritou. Detesto quando isso acontece. Lógico que uma palavra ou outra realmente não tem correspondência, mas não achei que fosse o caso aqui. São trechos grandes em latim e muitos termos em inglês ao longo do livro. Isso, de fato, me cansou.

“Se fosse possível resumir a miséria humana, isso seria feito por Gwynplaine e Dea. Pareciam ter nascido cada um num compartimento do sepulcro; Gwynplaine no horrível, Dea no negro. A existência dos dois era feita de trevas de espécies diferentes, extraídas dos dois lados assustadores da vida. Trevas que Dea tinha em si e Gwynplaine sobre si. Havia algo de fantasma em Dea e de espectro em Gwynplaine. Dea estava no lúgubre, Gwynplaine no ruim. Para Gwynplaine, que enxergava, havia uma possibilidade pungente que não existia para Dea, cega: comparar-se aos outros. Ora, numa situação como a de Gwynplaine, admitindo-se que ele procurasse entendê-la, comparar-se era deixar de compreender-se. Ter, como Dea, um olhar vazio do qual o mundo está sempre ausente é um sofrimento supremo, menor porém que o de ser seu próprio enigma; sentir algo ausente que é a ausência de si mesmo; ver o universo e não se ver. Dea tinha um véu, a noite, e Gwynplaine estava mascarado com a própria carne”.

Adorei a história e a escrita do autor, com exceção desses detalhes que mencionei acima. Se não fosse por eles, daria a nota máxima, com certeza.

>> Minha intenção era fazer um post da coluna ‘Leia o Livro, Veja o Filme’, mas, como quero falar de duas adaptações, o texto ficaria enorme. Então, deixei aqui somente minhas impressões sobre o livro, e escreverei sobre os filmes no próximo post. Aguardem!

>> “O Homem que Ri” será discutido no Fórum Entre Pontos e Vírgulas a partir de 07 de março. Deixo abaixo o vídeo-convite da Gláucia. Esperamos vocês lá!


Um comentário:

Daniele disse...

Estou com vontade de ler este livro há um tempo, mas empacava quando lembrava da quantidade de páginas. Você me incentivou, Michelle! Darei uma chance a ele. Beijos!

http://www.the-dearest-room.blogspot.com.br/