segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Resenha: Coração Apertado


Nadia e Ange formam um casal de professores que coloca a profissão acima de tudo. Um dia, percebem que os alunos e seus pais, os colegas de trabalho e todos os vizinhos estão os tratando de um jeito estranho, mas não sabem o motivo. Ange é ferido na barriga e o ferimento parece piorar a cada dia. Para complicar ainda mais a situação, o vizinho que eles mais detestavam se infiltra na casa e cozinha para eles sem parar.

O que dizer desse livro? Estranho, bizarro, perturbador. Não à toa, a sinopse menciona "A Metamorfose", de Kafka. Guardadas as devidas proporções, é bem por aí mesmo. Página após página, acompanhamos o desenrolar de uma história surreal, o comportamento peculiar do casal principal, personagens grotescos, eventos inacreditáveis e um clima de suspense angustiante que prende a atenção até o desfecho (esse sim ficou a desejar, na minha opinião).

O casal de protagonistas se achava superior a todas as outras pessoas, não se misturava, dizia com orgulho que não sabia do que acontecia no mundo porque se recusava a assistir televisão (coisa de gente medíocre, segundo eles), adorava dar festas para esfregar na cara dos outros seu sucesso e para falar de si mesmos, mas não permitia jamais que outras pessoas contassem a respeito de suas vidas – nada que não fizesse parte de seu mundinho particular lhes interessava.

Assim, quando começam a ser tratados com desdém e violência na escola e nas ruas, se sentem perdidos, mas, novamente, se recusam a perguntar o motivo (isso seria se rebaixar demais): reconhecer que não sabiam de algo era vergonhoso para eles, assim como aprender qualquer coisa nova. O casal é tão detestável que cortou relações com os próprios filhos (frutos de casamentos anteriores de ambos) para que pudesse viver a vida que julgavam ser perfeita. Como descobrem a duras penas, evitar o contato com o que lhes desagradava não fez com que o desagrado sumisse.

A história foca mais em Nadia e sua jornada, enquanto Ange, ferido, fica confinado à cama, aos cuidados do vizinho rejeitado que, agora, assume a função de cozinheiro e enfermeiro. Nadia, apesar de ter medo e resistir àquele intruso, acaba colocando em suas mãos o destino do marido, já que ela mesma tinha nojo da estranha ferida que ia se alastrando e transformando o corpo de Ange.

O mais bacana do livro é tentar desvendar a realidade em meio aos delírios de Nadia, que também começa a se transformar enquanto revela aos poucos seu passado e tudo o que fez para conquistar sua vida perfeita. Confesso que ela teve, sim, grande culpa na história, mas não acho que o marido possa ser isentado de responsabilidade, como dá a entender.

Em todo caso, foi uma leitura intrigante e adorei ser testemunha da metamorfose de Nadia de mulher insensível e presunçosa em uma pessoa mais humilde. 

"Eu costumava achar que as más reputações nunca são de todo injustificadas, e que, se as reações à fama suspeita podem ser desproporcionais, estúpidas, maldosas, aquilo que a provoca raramente é contestável".

Recomendo a quem procura uma história inusitada, que fuja da narrativa convencional.

Este livro faz parte do "Desafio Mulheres e Páginas", criado pelo blog "Elas Leram". O objetivo é ler 1 livro escrito por mulher a cada bimestre, de acordo com os temas. O tema de janeiro/fevereiro é Autoras Negras e, para tanto, escolhi a escritora Marie Ndiaye, a primeira francesa negra a ganhar em 2009 o Goncourt, o maior prêmio literário da França, que há onze anos não 
era atribuído a uma mulher.

2 comentários:

Aline Aimée disse...

Esse enredo me deixou mais que curiosa. A comparação com A Metamorfose só piorou tudo, rsrs.

Maurem Kayna disse...

Pois é... estou ainda remoendo a leitura recém concluída. Desde que iniciei a leitura o livro me prendeu de um modo insano, mas ao terminar a leitura, fiquei me sentindo perplexa, mas pensando na recomendação da orelha do livro para aguardar uns dois dias até que o sentido se consolide.