domingo, 12 de fevereiro de 2012

Filmitchos: O Espião Que Sabia Demais / Os Descendentes

O que vem a sua cabeça ao ouvir falar em “filmes de espião”? Algo do tipo James Bond, com muita ação, tiros, dispositivos tecnológicos, galãs, carrões, mulheres lindas? Se respondeu que sim, sinto muito mas você não vai gostar de “O Espião que Sabia Demais" (Tinker, Tailor, Soldier, Spy), o mais recente filme de espionagem a chegar aos cinemas brasileiros.


A trama se passa no início dos anos 70. Após uma missão malsucedida em Budapeste, Control (John Hurt), chefe da Circus, a divisão de elite do serviço secreto britânico, é obrigado a se aposentar precocemente e arrasta com ele mais alguns membros da Circus. Um deles é o espião George Smiley (Gary Oldman), que agora é convocado a voltar à ativa para descobrir quem é o “toupeira”, ou seja, o agente duplo infiltrado que vem trabalhando há anos para os soviéticos. Contando apenas com a ajuda do agente Peter Guillam (Benedict Cumberbatch) e pistas deixadas por Control, Smiley tem que descobrir qual dos quatro remanescentes membros do Circus é o traidor: Percy Alleline (Toby Jones), Bill Haydon (Colin Firth), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Toby Esterhase (David Dencik).

Baseado no livro mundialmente famoso de John le Carré, o universo criado por Tomas Alfredson, também diretor do ótimo “Deixa ela entrar”, é frio, enfumaçado e com cores sóbrias. A melancolia dá o tom. Ao contrário do imaginário do espião criado por Hollywood, o que se vê na tela é o mais próximo do que acontece na vida desses homens que dedicam suas vidas a esse trabalho que nada tem de glamoroso e é, por vezes, extremamente burocrático, já que é um órgão do governo. Afastamento da família e dos amigos e solidão fazem parte do trabalho e confiança e lealdade andam de mãos dadas com intrigas e especulação. O próprio John le Carré é ex-espião e participou como consultor do filme e ficou muito feliz com o retrato mais fiel desse ofício.
Induzindo ao erro: O pôster nacional
passa uma ideia que o filme
tenta desfazer: glamorização /
o pôster em inglês tem mais
a ver com a intenção do
filme: espião melancólico
O filme de Alfredson apresenta finas ironias, como o sobrenome Smiley (sorridente, em inglês) de um Gary Oldman que jamais esboça o mais leve sorriso. Nenhuma cena do filme é aleatória, os detalhes são fundamentais e justificados. Quem prestar atenção na história, descobrirá facilmente quem é a toupeira. “O espião que sabia demais” é um filme que não entrega tudo de bandeja; é preciso observar, absorver, deduzir. Este é um dos principais motivos de reclamação que tenho visto por aí. Estamos acostumados a sentar e ser apenas observador, mas este filme nos obriga a pensar, participar. Pode não ser fácil, mas quem se der ao trabalho será recompensado com um belo filme.
Curiosidades:
- O título original do livro e filme é uma referência a uma música muito usada no ensino de língua inglesa: “Tinker” (funileiro), “Tailor” (alfaiate), “Soldier” (Soldado), “Spy” (Espião), mas no nome da música não há “Spy”, e sim “Sailor” (marinheiro). Dica: a canção ajuda a decifrar o enigma da trama.
- Gary Oldman teve um momento de pânico às vésperas do início das filmagens por não conseguir encontrar os óculos perfeitos para seu George Smiley. Conhecido por suas interpretações expansivas e por frequentemente contar com muitos apetrechos de caracterização, sentiu-se nu sem tanta indumentária e com um personagem tão contido.
- O filme concorre ao Oscar 2012 nas categorias Melhor Ator (Gary Oldman), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.
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Ambientado no Havaí, “Os Descendentes” (The Descendants) passa bem longe do paraíso que estamos acostumados a ver quando se pensa na ilha. O filme começa com Matt King (George Clooney) tendo que lidar com suas duas filhas quando sua mulher, Elizabeth, entra em coma devido a um acidente. Com um histórico de advogado dedicado, mas pai ausente, ele não sabe o que fazer com sua filha mais nova, Scottie (Amara Miller), de 11 anos, que começa a dar problemas na escola, e Alexandra (Shailene Woodley), sua filha mais velha, de 17 anos, que estava em um internato e que também tem quebrado algumas regras. Ao mesmo tempo em que tenta cuidar da família, tem que tomar uma decisão importante: vender ou não uma grande porção de terra que ele e seus primos herdaram dos tataravós. Sendo o responsável pela palavra final, Matt é pressionado pelos parentes que desejam que a propriedade continue sendo da família, por aqueles que estão falidos e veem na negociação uma chance de sair do buraco e ainda por vários moradores, pois a venda do terreno pode acarretar uma grande mudança no ecossistema local. Para piorar, descobre que a esposa não sairá do coma e que ela tinha um amante.
O filme aborda várias questões delicadas, como morte, laços de família, traição, ambição. É muito interessante ver como Clooney, que deveria assumir o papel de responsável pai da família, não tem a menor noção de como agir, nenhuma autoridade ou iniciativa. Sua filha mais velha, Alex, é que assume as rédeas da família destroçada. É ela quem informa o pai sobre a traição, é ela quem impõe limites à irmã mais nova, ela quem ajuda e apoia o pai na confrontação com o amante da mãe. Até mesmo Sid (Nick Krause), um adolescente com jeito de bobão amigo de Alex, em certa cena dá show de maturidade ao contar a Matt sobre suas habilidades e como lidou com a perda do pai quando este último lhe pede conselho sobre como agir. Também são Alex e Sid que defendem Matt das acusações de seu sogro Scott Thorson (Robert Forster).
Gostei do filme mais do que imaginava, principalmente de como todas essas questões espinhosas são abordadas. Um filme muito bom, com certeza, mas nem de longe é um filme que considero “oscarizável”. George Clooney, indicado na categoria Melhor Ator, tem ótima atuação, mas já o vi melhor em outros papéis. Para mim, o filme é de Shailene Woodley. O filme foi indicado ainda nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor (Alexander Payne), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem
VENCEDOR DO OSCAR 2012 NA CATEGORIA: Melhor Roteiro Adaptado.

3 comentários:

Raíssa disse...

Ainda não vi nenhum dos dois filmes, mas fiquei com muuita vontade de ver "O Espião Que Sabia Demais", principalmente por causa do Gary Oldman, que é um ator que eu gosto muito! :)

"Os Descendentes" tão falando bastante, né, muitos críticos dizendo que é um dos melhores filmes do Clooney. :) Não é um filme que eu pagaria pra ver, mas acho que pode me surpreender bastante.

Ahh, tbm adoro Hornby, que bom achar alguém que também gosta! :D Quero ler outros livros dele, preciso terminar de ler "Alta Fidelidade", que comecei a ler, mas abandonei. :/

Ahhh, sim, verdade, a personagem da Dakota era de fato bem jovem, mas não sei fiquei sentindo que faltava alguma coisa... ._. Acho que eu tava esperando a menina surtar e descabelar por tudo, mas esse nem é o propósito do filme, né? XD O filme é bem mais delicado. :)

bjs bjs!

livroseoutrasfelicidades disse...

Concordo com tudo o que você disse sobre o filme "o espião que sabia demais". Só não sabia ("eu não sabia demais"...rs) sobre o título vir de uma música infantil...
bj

danamartins disse...

Quando eu fui ver Millennium a mãe do meu amigo foi ver esse do Espião, o pai dele dormiu o filme inteiro e eles falaram que era uma droga. Fiquei até agora com isso na cabeça, porque eu não acreditava que isso fosse verdade, principalmente depois de ver falarem tanto do Gary Oldman por causa do Oscar. Agora eu acho que entendi. Acho que as pessoas têm preguiça de pensar mesmo e acaba acontecendo isso. Eu escuto muito "ah, tem que pensar? arranja aí um filme que não tem que pensar" x.x

E "Os Descendentes" é bem o que você falou. Até entendo (acho) por que indicaram, mas não acho que vai ganhar.