quarta-feira, 23 de maio de 2012

Desafio Literário 2012: A Mulher do Meio-Dia (Julia Franck)


O livro apresenta duas histórias interligadas. A primeira começa com Alice e seu filho Peter fugindo da guerra, tentando embarcar em um dos poucos trens superlotados que deixavam a cidade. Não havia viagem direta, então eles precisavam descer em uma estação e comprar bilhetes para seguir até a cidade seguinte. Alice deixa Peter sentado em um banco segurando a mala e vai comprar passagens. Ele aguarda a mãe por horas, até perceber que ela não voltaria mais. A segunda é sobre as irmãs Helene e Martha, sua infância sofrida ao lado da mãe doente, as perspectivas de uma nova vida em Berlim, o encontro do amor e a guerra. Como a história desses personagens se entrelaça? Só lendo para saber...


“Martha disse que pouco adiantava Mariechen ensinar-lhes os pontos, para que soubessem bordar suas iniciais em linho. A mácula era sua origem, não as iniciais”.
(página 43)

Antes de começar a ler o livro, procurei saber um pouco mais sobre ele e me deparei com vários comentários negativos, principalmente quanto às motivações dos personagens. O que pude perceber é que nada neste livro é escrito de maneira direta. Leva-se tempo para ir juntando os cacos de informações e formar o quebra-cabeça. Um dos principais alvos das críticas dos leitores era Selma, a mãe de Helene e Martha. Desde o começo percebemos que a relação da mãe com as meninas não era boa. Ela gritava com as filhas, batia nas garotas e as insultava. Aos poucos, sua história vem à tona. Ela era judia e ateia, o que fazia com que fosse vista como “estranha” e “diferente”, mesmo após morar há mais de 10 anos no mesmo lugar. Além disso, Selma e o pai das meninas não haviam se casado na igreja, como mandavam as tradições; tinham recebido apenas a benção civil. Então ela era apontada nas ruas, excluída em sua própria vizinhança. Isso fez com que Selma fosse se retraindo cada vez mais. Ela começou a desenvolver TOCs, virou acumuladora de objetos; após o nascimento de Martha (a filha mais velha), perdeu quatro filhos, não queria engravidar novamente, mas deu à luz Helene. O marido a amava e percebia que estava doente, mas não sabia como lidar com os transtornos psiquiátricos da esposa e não queria que fosse internada em um manicômio, então a mantinha em casa e tentava fazê-la feliz. No entanto, quando ele é obrigado a juntar-se ao exército e partir para a guerra, a situação degringola de vez. Se tudo isso justifica tratar mal as filhas? Lógico que não. Não é justificável, mas é compreensível. Não dá para exigir que uma pessoa com tantos problemas psicológicos aja de forma racional.

O mesmo acontece com a Alice, a mãe que abandona o menino na estação de trem. Não é justificável, mas ao conhecermos o passado de Alice, sua infância problemática, suas decepções amorosas, sua vida infeliz ao lado de um marido violento e nazista e o futuro sombrio que vislumbrava para si mesma e para o menino, é difícil não se colocar no lugar dela e tentar imaginar o que faríamos em tal situação. O que pode parecer desnaturado talvez seja apenas um ato de desespero. Como julgar alguém que toma atitudes drásticas em tempos de guerra?

Outro ponto que pode ter desapontado os leitores é a abordagem de assuntos que não são esperados em um livro que se passa em um período de guerra (pelo menos eu não esperava). Quando pensamos em histórias em tempos de guerra, logo vêm à nossa mente sofrimento, famílias destruídas, amores interrompidos, superação da dor etc. Tudo isso está presente em “A mulher do meio-dia”, mas o livro também trata de assuntos como lesbianismo e uso de drogas. Demorei a me convencer de que era isso mesmo. Desde o começo a autora fala da proximidade entre as irmãs, em como Helene gostava de acariciar as costas de Martha, de como a admirava, de seu ciúme ao ver Martha com o namorado, da disputa das irmãs pela atenção de uma amiga etc. Eu imaginei no começo que fosse apenas a descoberta da sexualidade entre crianças/adolescentes, já que Helene, no início, tinha 7 anos, e Martha 16. Mas conforme as garotas crescem, vem a confirmação: sim, elas sentiam atração por mulheres. A homossexualidade das personagens não me chocou, mas não esperava ver o assunto abordado em um livro de guerra. Preconceito da minha parte, ingenuidade? Não sei... só não imaginava.

O uso de drogas pelos personagens também foi algo inesperado. Martha era enfermeira, logo, tinha acesso a todo tipo de medicamento. A morte do pai e as dificuldades com a mãe podem tê-la levado a esse caminho. No entanto, quando Helene e Martha vão morar com a prima Fanny em Berlim, as drogas rolam solto. Na capital cosmopolita, Martha embarca com a prima Fanny em noitadas regadas a muita bebida e cocaína, o acaba afetando sua vida e também a de sua irmã. Mais uma vez, seria ingenuidade minha não esperar essa vida boêmia? Talvez, mas poucas vezes (ou nenhuma) vi esse assunto ser abordado em filmes e livros que se passam em períodos de guerra.

Enfim, “A mulher do meio-dia” é um livro muito bom, mas, para apreciá-lo, temos que deixar as expectativas de lado, abrir a cabeça e aceitá-lo do jeito que é. Com certeza será surpreendente.

P.S. – O título original do livro é Die mittagsfrau, ou seja, literalmente “A mulher do meio-dia”. Encontrei duas possíveis origens para esse nome. A primeira vem de uma antiga lenda alemã, segundo a qual uma mulher (ou bruxa) aparecia aos camponeses precisamente ao meio-dia e os castigava se eles estivessem trabalhando na hora do almoço. A única forma de escapar aos castigos era responder às perguntas feitas pela bruxa. A segunda hipótese vem de uma lenda de origem eslava sobre uma bruxa que aparecia ao meio-dia para levar crianças que desobedeciam aos pais. Para mim, ecos das duas lendas podem ser vistos no livro. Muito interessante!

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Este post faz parte do Desafio Literário 2012 - Tema de Maio: Fatos Históricos. Para ver minha lista de livros selecionados e outras resenhas já postadas,CLIQUE AQUI. 

6 comentários:

lualimaverde disse...

Parece ser um livro muito rico, Michelle! Realmente essas questões que você apontou são raras em filmes de guerra porque a gente tem a sensação de que em situações extremas as pessoas só pensam em sobreviver. Bem legal. Beijo!

Mi Müller disse...

Ah esse livro está pra mim, adoro livros que fogem do lugar comum quando se trata de guerras. Como sempre adorei a forma como tu escreveu sobre ele.
estrelinhas coloridas...

andreia inoue disse...

Poxa,adorei a sua resenha.
Ainda nao conhecia essa autora e nem esse livro.
Irei pesquisar pelas bibliotecas,fiquei com muita vontade de ler a mulher do meio-dia,
um abracao.

livroseoutrasfelicidades disse...

Coube tudo isso em um livro só??

Michelle disse...

Hahaha... coube tudo isso.
A Lua resumiu bem: a gente pensa que em tempos de guerra as pessoas só querem sobreviver. Porém, isso não é tudo; elas tentam manter a rotina para não pirar, né?

Vivi disse...

Gostei da forma como você analisa o livro lido. O bom leitor não deixa p as entrelinhas e os subtextos passarem em branco. Muito bom! Beijocas