segunda-feira, 7 de maio de 2012

Leia o Livro, Veja o Filme: Do Amor e Outros Demônios


O Livro - Do Amor e Outros Demônios (Gabriel García Márquez)
A história se passa em uma pequena cidade da América do Sul de colonização espanhola, onde a Igreja Católica impunha suas crenças aos índios nativos e aos negros e considerava tudo o que não estava de acordo com seus princípios bruxaria ou adoração ao demônio. É lá que vivia Sierva María, filha única de 12 anos de Dom Ygnacio de Alfaro y Dueñas, o Marquês de Casalduero, e de Bernarda Cabrera. Resultado de um casamento de interesses, nascida de 7 meses e desenganada pela parteira, a garota que já teve um início de vida complicado foi rejeitada pela mãe, ignorada pelo pai e criada junto aos escravos. Um dia, andando pela feira com uma das escravas de sua casa, Sierva María é mordida por um cão raivoso e é então que tem início sua trágica sina.


Ao ser informado pela escrava, dias depois, sobre o incidente da feira e encontrar Sierva María delirando em decorrência da mordida, seu pai chama para examinar a filha o médico da cidade, Abrenuncio de Sá Pereira Cão. Sem um diagnóstico preciso, o médico aconselha o marquês a observar as reações da menina e fazer com que seus últimos dias na Terra sejam felizes, pois se a raiva fosse confirmada, não restaria outra coisa a fazer senão mandá-la para um lugar isolado onde os enfermos agonizavam até morrer. Desesperado com o prognóstico sombrio, o pai começa a utilizar todo tipo de unguento, benzedura e feitiço para tentar curar a filha, o que acaba piorando os delírios. Sem saber mais a quem recorrer e embora estivesse afastado da igreja há anos, ele procura o bispo em busca de uma solução. O caso da menina era algo incompreendido e, portanto, só poderia ser obra do capeta. O bispo então é claro e irredutível em sua decisão: internar Sierva María no Convento de Santa Clara para iniciar o exorcismo.

O livro descreve muito bem o panorama de país colonizado, as incongruências dos novos ricos (chamados de “nobres de goteira”), a mistura de crenças africanas com os princípios católicos, a perseguição do Santo Ofício aos pensadores e a todos que discordavam das ideias religiosas vindas da Espanha. García Márquez é mordaz em sua crítica à igreja católica, que condena previamente tudo o que não consegue explicar, atribuindo uma força extraordinária ao mal. Isso fica bem claro nos diálogos que se desenrolam no convento, entre a abadessa Josefa Miranda, encarregada de Sierva María, e Cayetano Delaura, o padre novato enviado para realizar o exorcismo. Tudo o que acontecia de diferente no convento (desde os galos que cantavam mais que o costume até um eclipse) era imediatamente atribuído à menina e ao demônio que supostamente vivia dentro dela. O fato de Sierva María falar diferentes línguas africanas e usar colares de contas também aumentava a aura de endemoninhada da garota. Para a abadessa, não havia o que discutir: a menina estava possuída; para o padre, tudo era questão de dar poder demais ao diabo. E ao duvidar da possessão e ter contato com Sierva María, o padre Cayetano enfrenta algo muito mais difícil de lidar do que demônios: o amor.

“Às vezes atribuímos ao demônio certas coisas que não entendemos, sem cuidar que podem ser coisas que não entendemos de Deus”.
(página 120)



Leitura proporcionada pelo Livro Viajante do Skoob


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O Filme - Do Amor e Outros Demônios (Del Amor y Otros Demonios, 2010)
O filme começa com Sierva María navegando em um barquinho junto com Domingas (chamada apenas de “Do”), a escrava que a criou. Na cena seguinte, a escrava está morta e testemunhamos Sierva María despedindo-se de sua "mãe" negra. Logo estamos na feira, onde ocorre o ataque do cão raivoso e, na sequência, vemos a menina delirante. O que se segue é a visita do médico e a internação da garota no convento para o exorcismo.

Com um visual muito bonito e delicado, o filme peca por acelerar demais os fatos, embora o ritmo da história seja arrastado. Não sei se fui clara na frase anterior. O que estou tentando dizer é que senti falta de muita coisa que foi deixada de fora no filme e que, se não tivesse lido o livro, ficaria meio perdida. Como nas cenas iniciais, por exemplo. Assistimos à morte da escrava e sabemos que a menina tinha uma forte ligação com ela, mas não sabemos por que. A importância dos negros e de sua cultura e crença para Sierva María fica em segundo plano. O foco é totalmente voltado para o amor proibido entre a menina e o padre. E por se estender demais nesse amor é que eu disse que o filme acaba sendo arrastado.

Por outro lado, há soluções muito bacanas encontradas pela diretora, como o zumbido constante ao fundo nas cenas de Sierva María (para indicar os poderes sobrenaturais atribuídos a ela), os sonhos da menina com a pequena vela que cai na água e não se apaga e a presença constante da menina no pensamento do padre Cayetano.

Acho que a adaptação ficou muito aquém do livro, mas vale como curiosidade.

9 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Não sei se tenho coragem de conferir o filme, já tive experiências não muito boas com outras obras de García Marquez.

BrunaReis disse...

Quero muito ler esse livro, como aliás, quero muito ler vários livros do Gabriel XD
Adorei teu blog , estou seguindo já
Beijão querida
Bruna Reis
http://desbravandohistorias.com.br/

teste disse...

Olá, Michelle!
Gostei da sua resenha sobre o livro e o filme. Apesar de não ter costume de ler muitos livros desse gênero, fiquei interessada pelo livro "Do Amor e Outros Demônios".
Beijos!

Biih
http://hellostar.org

sylviacheleiro disse...

De Gabriel Garcia Marques só li Cem anos de Solidão e fiquei deslumbrada. Tenho muita vontade de ler mais obras do autor.

Os filmes baseados em livros sempre me decepcionam, então faço asim : antes de assistir ao filme leio a obra.
Aproveito muito mais.

Jacqueline Braga disse...

Nunca li nada do autor, mas o enredo chama atenção, diferente da capa.
Bela resenha.
SObre o filme, acho que a maioria dos problemas com adaptações, é o fato de muitas vezes o filme cortar partes importantes para o entendimento de certos fatos ou correr demais com a história. Nesse caso eu vou dar preferência a ler o livro antes para não me decepcionar.
bjos

Michelle disse...

Eu geralmente leio o livro primeiro e vejo o filme mais por curiosidade mesmo.
A Jacqueline tocou em um ponto importante: a capa. Reparem que o livro tem uma capa péssima, mas é sensacional; já o filme tem um cartaz lindo, mas deixa a desejar.

Karla disse...

Adoro o que esse homem escreve. Assisti "Memória de minhas putas tristes" e não me lembro se a crítica foi positiva, mas eu gostei do filme. Mas esse ainda vou esperar um pouco, ainda quero ler o livro antes :)

Sara Silveira disse...

Gostei :) li o livro e aqui esta uma boa sintese para somar do que se trata

Jonatas Machado disse...

Li o livro e garanto que quem lê vai adora