segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Resenha: Ishq & Mushq - Amor e Cheiro


A história de Sarna e Karam começa em 1947, durante a guerra de independência da Índia. Ao embarcarem no navio que os levaria para Uganda para iniciar a vida de casados, Sarna leva na bagagem muito mais do que retalhos, utensílios e temperos variados: leva também um segredo que pesará sobre seus ombros e afetará sua família durante décadas. Karam, por sua vez, carrega consigo uma frustração, que tentará compensar nos anos seguintes, mas que acabará por criar um abismo entre ele e a esposa. Como bem havia dito a mãe de Sarna em seu leito de morte, “Só há duas coisas que não conseguimos esconder jamais: Ishq e Mushq – amor e cheiro”.

O começo da trama nos mostra o que aconteceu a Karam em sua chegada à Índia, os desafios que teve que enfrentar, a doença que quase o matou e sua redenção no casamento com Sarna. De Sarna, ficamos logo conhecendo seu talento na cozinha, sua paixão pelas especiarias, seu amor em forma de comida que acabou encantando e resgatando Karam de um fim trágico. O início da viagem dos dois é um conto de fadas - de terceira classe, é verdade, mas ainda assim a admiração de Karam pela jovem e impulsiva esposa é comovente.

Ao chegarem na África, vão morar com a família de Karam, que demonstra claramente não gostar de Sarna, mas o casal se mantém unido mesmo diante das dificuldades. No entanto, caprichos de Karam o afastam da casa e, consequentemente, de sua mulher. Uma fatalidade piora ainda mais a situação e, em pouco tempo, o amor de ambos começa a ruir. Anos mais tarde, a ida de Karam, Sarna e da filha para Inglaterra acena com uma pequena possibilidade de recomeço, porém a receita já tinha desandado. Acompanhamos então o sofrimento e a solidão que afeta toda a família durante muitos anos, passando de uma geração à outra, até o curso de segredos ser finalmente quebrado.

“Ishq & Mushq” é um livro envolvente, que fala de erros, desculpas, mentiras e perdão. Todos os personagens são extremamente humanos, e, portanto, cheios de falhas. Em maior ou menor grau, eles lutam contra o preconceito, a rejeição e o destino imposto por outras pessoas. No princípio, eu detestei Karam. Achei seu drama pessoal bobo e suas constantes viagens uma atitude adolescente e um tanto covarde. Assim, me solidarizei plenamente com Sarna e todas as provações que ela teve que enfrentar sozinha.

Todavia, conforme os anos passaram, a forma como ela tratava os filhos e o marido, sua veia manipuladora e, principalmente, o papel de mártir que ela reivindicava a si mesma começaram a me irritar muito. Grande parte do sofrimento de todos poderia ser evitada se ela descesse do pedestal e prestasse atenção em quem estava à sua volta. E seu grande segredo é bem simples de deduzir, logo nas primeiras páginas do livro. Seu poder destrutivo, no entanto, ganhou uma dimensão absurda justamente por ter permanecido como um assunto intocável.

O ponto forte do livro são os personagens e seus conflitos pessoais. Sendo adoráveis ou irritantes, é inegável que são muito bem construídos e conseguimos nos identificar com todos eles pelo menos em algum momento. Além disso, é um “Livro com Sabor”, já que Sarna passa páginas e mais páginas criando quitutes de todo tipo, inventando doces que davam água na boca só de imaginar, realizando uma delicada alquimia de temperos que, durante a leitura, até consegui sentir o cheiro que emanava de sua cozinha. Dá para entender porque Karam foi pego pelo estômago...

“Ela se apoiou pesadamente na bancada e olhou para o caos em que se achava a sua caixa de temperos. As lágrimas continuavam a cair. Através do seu olhar cheio d’água, a confusão seca de temperos tomou a forma derretida, líquida e intensa da lava. Então, uma lágrima caiu dentro da lata, soltando no ar o cheiro misturado dos temperos, como a chuva que, quando atinge o solo, libera o cheiro da terra. Sarna respirou fundo, revigorada pelo reconfortante Mushq familiar. Os aromas dos temperos emergiram dos cascalhos de sua vida como uma promessa de redenção. Ela secou as lágrimas. Não, não ia se entregar. Ela encontraria um jeito. Ela sempre encontrava, e encontraria outra vez.”

Romance cheio de aromas tentadores que tem como cenário vários continentes. Recomendo (só não leia de barriga vazia).


Mais uma leitura proporcionada pelo Livro Viajante do Skoob.

6 comentários:

Ana Leonilia disse...

Oi, Michelle!
Que livro inusitado! Nunca ouvi falar, mas gostei do enredo. Essa combinação de viagens, dramas e culinária costumam me agradar. Adicionei na lista! :)

Bjs ;)

Lígia disse...

Sempre tive interesse para ler esse livro, mas nunca soube muito bem sobre o que ele é. Parece ser interessante (e delicioso)

Marta Pinto disse...

Michelle, muito boa a resenha.
E eu também senti a mesma coisa em relação a Sarna,e acho que o drama pessoal a que ela se entregou era principalmente 'o excesso de bagagem que ela carregava em sua mente: a cabeça pesava de lembranças que queria esquecer.' [19] Uma cabeça cheia de Ishq & Mushq.

Carissa Vieira disse...

Não conhecia o livro, mas agora quero ler.
Gostei de ser um "livro com sabor" e a história parece diferente do que vemos aos montes por aí.

Beijos,
Carissa

Ps - Agora estou no blog
www.sopaprimordial.com.br

mm amarelo disse...

Michele, fiquei curiosa. Gostei muito da forma como você fala dos dramas desses personagens, parece tudo muito complexo e muito humano. Sem falar que, é sempre bom sair da zona de conforto dos romances amaricanos&ingleses, sempre que faço isso percebo que há muitas vozes e muita força narrativa nelas.
Saudades,
Maira

PS: Adorei a citação “Só há duas coisas que não conseguimos esconder jamais: amor e cheiro”.
<3

Michelle disse...

Ana,
Eu também adoro esse tipo de combinação. Acho que você vai gostar.

Lígia,
O livro estava na minha lista de querências fazia tempo. Daí, descobri outro dia que tinha um LV rolando e li por lá.

Marta,
Exato. Esse trecho que você selecionou ilustra bem os dramas da Sarna.

Carissa,
É diferente sim. E bem saboroso.

Maira,
Também percebo essas vozes diferentes e adoro! Também estou com saudade!