segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Resenha: Um, Dois e Já


Um casal e seus quatro filhos cruzam estradas a bordo do carro da família rumo a uma casa alugada onde passarão as férias. De sua posição de passageira no banco traseiro do automóvel, nossa narradora faz observações sobre a paisagem e sobre o pequeno universo particular que habita durante a viagem. Com bom humor e delicadeza, a autora nos fala de coisas sérias, enquanto nos transforma em passageiros nessa história simples e estranhamente familiar.

Embora a narrativa não especifique locais e datas, o texto da orelha informa que a história se passa no Uruguai em tempos de ditadura, referências da infância da autora. Mesmo que essas informações não sejam explicitadas, podem ser inferidas pelas terríveis notícias que saem do rádio do carro e pelo temor silencioso dos pais. As paisagens bucólicas cheias de vacas nos pastos, o mate, as milongas e as empanadas do café da manhã localizam a ação entre a Argentina e o Uruguai. Na verdade, a ausência de especificidade é o que torna a história tão próxima. Poderia ter sido no Brasil. E a família poderia ser a minha ou a sua.

Sobre a narradora sem nome, sabemos que tem por volta de 10 anos e que é irmã do meio, aquela que é sempre invisível e que precisa gritar para ser ouvida. Em sua condição pouco privilegiada na hierarquia familiar, tem que disputar com os irmãos o posto mais desejado: a janelinha. No pequeno espaço que divide com os demais, aprende quando exercer a diplomacia e quando reivindicar seus direitos, quando ouvir e quando falar.

Segundo a peculiar lógica infantil, a protagonista descreve a paisagem, depois se envolve em discussões com os irmãos, invoca lembranças de uma amiga, faz planos para quando finalmente chegarem ao destino, se entedia com a viagem, tenta quebrar a monotonia inventando jogos. Em seus relatos, observações, memórias, sons e cheiros se misturam e encontram eco no leitor.

“Um, dois e já” é uma road trip curta, daquelas que lembramos com nostalgia depois de crescidos. Um daqueles casos em que o percurso é mais valioso que o destino. É o primeiro livro publicado no Brasil da escritora e roteirista de cinema Inés Bortagaray. No formato pocket, com letras de bom tamanho e lindas páginas azuis, é ideal para levar na bolsa e ler fora de casa. Li toda a história em uma viagem de ida e volta de metrô. Aguardo a chegada por aqui de outras obras da autora.

“O locutor da voz grave me dá dor de barriga. Fico com medo do jeito que ele fala; fala de tarifas. Penso nos tarifas: uma tribo de aborígenes tarifas desce correndo a encosta de um monte parecido com esses das silhuetas escuras da estrada. Os tarifas descem correndo, batendo com a mão na boca e gritando que nem selvagens. Meu irmão atira uma flecha no chefe dos tarifas e acerta na testa dele. Ele cai com os olhos vazios. Eu subo num galho alto de uma árvore do vale e vejo os tarifas avançando como formigas que avançam em multidão. São formigas, de repente. Não me assusto. Tensiono o arco e a flecha dispara e atravessa a garganta de uma tarifa horripilante. É a esposa do chefe. Me vanglorio. Estamos conseguindo nos defender.”

Para quem procura uma uma leitura rápida, uma história simples contada com originalidade.

5 comentários:

Claudia Leonardi disse...

Estou curiosa pra ler este, Mi
Olha só que coincidência, acabei de ler um autor uruguaio tbe, Mario Benedetti.
Bjks mil

Tati disse...

Adorei a resenha MiG!
Ainda não tenho esse, mas com certeza quero ler, parece ser um livro muito sensível!
Beijo!

Duane disse...

Amei a resenha! Não conhecia o livro, me interessei bastante, adoro leituras rápidas :)
Bjoos.

http://literatainofensiva.blogspot.com/

Aline Aimée disse...

Oi, Michele!
Essa parece uma ótima indicação!
Estou aqui me coçando para descer na hora do almoço e comprá-lo!

Beijinhos!

lulunettes disse...

Quase adquiri “Um, Dois e Já” com o cupom de aniversário da Cosac Naify. Agora estou arrependida Ç_Ç Esse livro parece ser muito legal! Bem, fica pra próxima!
Beijos, Michelle!