quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Resenha: Lituma nos Andes


O Cabo Lituma e o Guarda Civil Tomás Carreño dividem o posto policial de um vilarejo nos Andes e se veem diante do intrigante desaparecimento de três pessoas. O que estaria por trás dos sumiços? Uma conspiração dos moradores locais? Obra do grupo terrorista que espalhava o medo havia tempos na região? Ou, quem sabe, esse seria um lembrete da insatisfação de criaturas místicas que habitam as montanhas desde sempre?

Em um local completamente isolado pela exuberante natureza e pelo clima severo dos Andes, foi iniciada a construção de uma estrada. Chegaram máquinas e operários e a obra começou. No entanto, greves e intempéries atrasavam o andamento do projeto constantemente. O que para uns se tratava de uma disputa entre a construtora e os trabalhadores, para Adriana, mulher do cantineiro Dionísio, era um sinal claro de castigo das entidades mágicas e dos diabos que moram nas selvas andinas.

Devido ao seu dom de ler o destino das pessoas nas cartas e linhas das mãos e de fazer previsões certeiras, Adriana era conhecida no local como “A Bruxa”. Sem dúvida, o comportamento sexualmente liberado de seu marido e os estranhos rituais de bebedeira e dança que promoviam em seu bar contribuíam ainda mais para aumentar a aura de misticismo em torno do casal.

“Lituma nos Andes” é um livro de ficção que insere alguns elementos históricos em sua trama (por exemplo: o grupo Senderista que teve forte atuação no Peru nos anos 70-80, invadindo vilas, realizando matanças indiscriminadas, sequestrando turistas e políticos), bem como crenças e lendas típicas dos Andes (o muki – o duende mineiro que vive dentro das montanhas; o pishtaco – ser barbudo e albino que se alimenta de gordura humana). Além disso, também retrata as diferenças na fala e nos hábitos entre os costeiros (mais urbanos e supostamente mais civilizados) e os serranos (pessoal mais simples e, em grande parte, descendente dos indígenas), criando a clássica rixa regional.

Llosa vai entrelaçando aos poucos a história dos personagens à investigação policial que é a espinha dorsal da trama. Se, durante o dia, Lituma e Tomás se empenhavam em encontrar pistas, interrogar pessoas e desenvolver hipóteses que ajudassem a desvendar o mistério, à noite eles se recolhiam ao pequeno barraco que fazia as vezes de posto policial e dormitório e se entregavam a horas de conversas, com Tomasito entretendo o superior com as loucuras que fez e os perigos que enfrentou para ficar com a mulher amada, uma prostituta que ele roubara do chefão do narcotráfico local (aliás, ele tem muito do Ricardito, de "Travessuras da Menina Má").

Escolhi este livro depois que a Renata comentou que pretendia lê-lo para o mês de agosto do Desafio Literário Skoob, que tem como tema “Livros com bruxas”. Eu, que nem sabia que havia uma bruxa nesta história, fiquei curiosa e aproveitei para ler minha terceira obra do Llosa. Mais uma vez, fui envolvida por sua narrativa peculiar que mistura fatos ocorridos em tempos e lugares diferentes sem usar marcações gráficas, o que pode parecer meio estranho no começo, mas que conseguimos assimilar rapidamente depois de algumas páginas. Foi uma leitura muito boa, que me permitiu conhecer um pouquinho mais da história do Peru em uma trama policial que prendeu minha atenção até o fim e ainda incluiu uma boa dose de romance e misticismo.

“A bruxa era a senhora Adriana, mulher de Dionísio. Quarentona, cinquentona, sem idade, à noite ela ficava na cantina, ajudando o marido a dar bebida às pessoas e, se era verdade o que contava, vinha do outro lado do rio Mantaro, das vizinhanças de Parcasbamba, uma região montanhosa e selvática. De manhã preparava comida para alguns peões e, à tarde e à noite, adivinhava a sorte com baralhos, mapas astrais, lendo as mãos ou jogando folhas de coca para o ar e interpretando as figuras que elas formavam ao cair. Era uma mulher de olhos grandes, saltados e ardentes, e quadris amplos que ela balançava ao caminhar. Tinha sido uma verdadeira fêmea, ao que parece, e se contavam muitas histórias sobre o seu passado. Que foi mulher de um mineiro narigudo, e até que matara um pishtaco. Lituma desconfiava que, além de cozinheira e adivinha, de noite também era outra coisa.”

P.S. Este é o terceiro livro do escritor peruano com o personagem Lituma, que apareceu pela primeira vez em “A Casa Verde” e depois em “Quem matou Palomino Molero?”. Além disso, fez participações no conto "Um Visitante" (do livro "Os Chefes") e no romance "Tia Julia e o Escrevinhador". Um verdadeiro astro! - Só para constar, é possível ler os livros em qualquer ordem.

Livro que apresenta uma boa mescla de gêneros literários com uma versão mais contemporânea das bruxas. Recomendo.

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Agosto: Livros com Bruxas. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI. 


Um comentário:

Renata Lima disse...

Mi, fiquei morrendo de vontade de ler, mas acho que vou esperar mais um pouquinho porque tem outros do autor que quero ler primeiro já que eu nunca li nada dele.

Adorei a resenha!
Beijos enormes!