segunda-feira, 11 de março de 2013

DRD2013: Contos da Gaveta (Noemio Brzostek)


“O palhaço faz rir os outros enquanto esconde as lágrimas frente aos infortúnios; assim faz Noemio em suas crônicas, quando encobre os dramas da realidade com ironia, humor e por vezes sarcasmo, porém, mantendo sempre o otimismo”.

Comprei esse livro há muito tempo, nem lembro mais onde. Posso dizer que, com certeza, o que chamou minha atenção foi o texto da contracapa, citado acima. Por outro lado, se o breve trecho de apresentação foi intrigante o bastante para me convencer a levar o livro para casa, não posso dizer o mesmo da capa, sem graça ao extremo. Aliás, a capa medonha é o motivo de eu ter resgatado o coitado do livro depois de anos na prateleira, para atender ao item 15 do Desafio Realmente Desafiante: ler um livro com a capa feia.

Deixando a arte gráfica de lado, vou tentar falar um pouco sobre minha experiência de leitura. Como todo livro de contos, o resultado é inconstante. Algumas histórias são brilhantes e ficam gravadas na memória; outras são apenas OK.

O grande destaque do livro é, sem dúvida, “Xixi na calcinha”, a divertida história de uma mãe que se desespera quando a filha de 4 anos diz que urinou nas calças por causa de um jacaré vermelho. Uma explicação tão simples quanto a inocência infantil encerra o conto, que aborda com humor as pessoas que superdimensionam fatos e veem problemas sérios onde eles não existem. Segundo a biografia do escritor, nas páginas derradeiras do livro, essa foi a crônica “teoricamente premiada” que o inspirou a continuar no mundo da literatura. E, de fato, eu já havia lido a história em algum lugar. Daquelas que entram na categoria “inesquecíveis”.

Recheado de histórias engraçadas do cotidiano, o livro arranca sorrisos em situações que nos causam identificação imediata com os problemas dos personagens. Destaco aqui um trecho de “Como comer listas de telefone”, sobre um homem que tenta ligar para a granja, do outro lado da rua, para que a mulher termine de fazer uma sopa. Um clássico exemplo de que nem sempre a tecnologia facilita nossa vida:

“Agarrei novamente o telefone, e depois de aplicar diversas técnicas que com os diversos anos descobri sozinho, como discar rápido o primeiro algarismo e lento os outros, segurar o telefone no ar sem encostar na mesa e incliná-lo para trás durante a discagem do último algarismo, consegui novamente a telefonista, com a voz diferente, parecia meio caipira".

Quem é que nunca fez um ritual secreto e estapafúrdio para conseguir completar uma ligação ou sintonizar um canal?

Além disso, outra crônica que achei muito boa é "Psicoprogram", uma história futurista sobre as maravilhas da ciência e o domínio das máquinas, que me lembrou o cenário mostrado em "Admirável Mundo Novo", por falar da “perfeição” de um mundo sem doenças, no qual cada ser sabe exatamente seu papel e age mecanicamente. Como na obra inspiradora, aqui também os livros foram banidos, devido ao seu poder transformador:

“Norton emocionou-se ao segurar pela primeira vez um livro em suas mãos: Na capa pôde ver o nome do escritor, meio apagado: Shakespeare. Ao abrir a primeira página, o nome do romance: Romeu e Julieta. Não conseguiu iniciar a leitura imediatamente, sentiu a necessidade de segurar o livro em suas mãos por mais algum tempo antes de começar a ler, de manuseá-lo com cuidado.”

Gostei de ter dado uma chance a esse livro meio esquecido. Foi uma leitura muito agradável e rápida, que me ajudou a completar mais um item do desafio e a aumentar minha marca de livros lidos em fevereiro de 2013.

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Esta postagem também faz parte do Desafio Realmente Desafiante 2013 - Item 15. Ler um livro com a capa feia. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DRD2013, clique AQUI. 

4 comentários:

Maura C. Parvatis disse...

Oi, Michelle!
Concordo contigo: a capa de Contos da Gaveta é feia, só o compraria mesmo porque li sua opinião sobre ele, achei o primeiro trecho muito bom :)
Se qualquer dia encontrar esse livro, vou querer ler para conferir o “Xixi na calcinha” e mostrá-lo para uma colega minha que me lembrou muito a mãe da menininha.

Beigos,
Maura - Blog da /mauraparvatis.

Michelle disse...

Oi, Maura!
Esse é o típico caso de não julgar o livro pela capa.
Bjo e obrigada pelo comentário!

Flávia disse...

Não conheço esse "Xixi na calcinha"...

Sobre o telefone, é verdade, rsrsrs. Ou a Tv, ou a Internet. Achamos que um ritual específico e provavelmente idiota, trará o sucesso.

Ah, e sim: ô capinha feia, rsrsrs

Beijos

Michelle disse...

Qualquer aparelho eletrônico que dê pau é um sério candidato aos rituais bizarros, né?
bjo