segunda-feira, 4 de março de 2013

Resenha: Sangue e Entranhas (Richard Hollingham)



Já imaginou ser submetido a uma cirurgia sem ter feito uma radiografia, sem anestesia, sem tratamento com antibiótico ou em uma sala não esterilizada? É inimaginável hoje em dia, mas por muito tempo os pobres pacientes que precisavam passar por procedimentos médicos preferiam morrer em casa a pisar em um hospital. E eles tinham razão: 90% das pessoas que passavam por cirurgias acabavam morrendo, vítimas, em sua maioria, de infecção.

Desde o início de sua existência, a humanidade sofre com todo tipo de doença e dores. Falta de vontade de curar os enfermos nunca foi um obstáculo, mas as poucas informações sobre anatomia humana e os escassos recursos farmacêuticos e tecnológicos sim. A vida de muitos inocentes teve fim antes que os quatro pilares da cirurgia fossem desenvolvidos: conhecimento da anatomia, capacidade de controlar sangramentos e suspender o fluxo sanguíneo, anestesia e técnicas de assepsia.

Pode parecer bobagem, mas alguns séculos atrás o simples ato de lavar as mãos e o uso de sala e instrumentos limpos eram considerados “frescura”. Um ótimo exemplo disso apresentado no livro era o número maior de mortes de grávidas em partos realizados por médicos do que naqueles executados por parteiras. Os números eram inegáveis, mas ninguém queria acreditar neles. Como era possível que parteiras sem formação médica e obviamente menos capacitadas que os médicos obtivessem mais sucesso nos procedimentos? Várias hipóteses foram levantadas e, no fim, a resposta foi surpreendente: as mulheres morriam menos nas mãos de parteiras porque o risco de infecção era menor. As parteiras não estudavam anatomia em cadáveres; só podiam praticar em bonecas. Já os médicos vinham direto do necrotério e, com as mãos contaminadas, faziam os partos.

Uma coisa interessante é que, ao contrário dos médicos, os cirurgiões não tinham prestígio nenhum antigamente. Eram considerados meros açougueiros. Não existia formação de cirurgião. No máximo, eram dentistas que, quando necessário, pegavam serrotes e saíam amputando membros por aí. Tenso!

Aliás, a parte mais aflitiva do livro fala justamente dos dentistas. Nada contra eles, mas eu tenho pavor de qualquer coisa que tenha que mexer na boca ou no nariz, então o trecho que narra um transplante de dentes foi bem angustiante. Como já sabemos, as pessoas não davam muita importância à higiene e, com os dentes, não era diferente. O problema é que não havia tratamento ou implantes artificiais. A solução? Pegar dentes de cadáveres ou botar anúncios em jornais para a compra de dentes em bom estado. Assim que eram arrancados, os dentes eram implantados em um orifício aberto na gengiva do receptor e amarrados uns nos outros. Incrível, não? Mas é claro que não dava certo, não só porque as raízes não se fixavam, mas também porque a transmissão de doenças era grande. A sífilis, principalmente, fez com que muitos pacientes orgulhosos do sorriso novo tivessem o rosto desfigurado tempos depois por causa das pústulas causadas pela doença. Definitivamente, não era um bom negócio.

Enfim, os seres humanos têm uma capacidade de criação e superação imensa. Os avanços alcançados até hoje são sensacionais e foi necessário esparramar muito sangue e entranhas para conseguir a evolução. Os métodos usados nem sempre foram úteis e, o pior de tudo, nem sempre foram éticos, mas aqui estamos nós e não dá para deixar de admirar aqueles que se empenharam e sacrificaram suas vidas para salvar outras.

“Os equívocos é que nos fazem lembrar que mesmo os maiores médicos são seres humanos falíveis".

E para quem curte humor negro, indico a série "A Young Doctor's Notebook", que já citei aqui. Dá uma boa ideia de como eram as cirurgias antigamente e ainda faz rir com as trapalhadas do jovem médico e seus assistentes.


Este livro é uma cortesia do grupo Lendo Entre Amigas

2 comentários:

Flavinha disse...

Menina, que aflição lendo a sua resenha!!!!!

Me senti num livro do Stephen King hahahahaha.

Ainda bem que não nascemos naquela época hein? Jesus!

www.chatadoslivros.blogspot.com.br

Jacqueline Braga disse...

Jesus, nem quero imaginar o médico vindo lá do necrotério, e fazendo um parto sem qualquer tipo de assepsia para realizá-lo...urgh
deu medo aqui, mas essa era a realidade de antigamente. Que bom que a medicina evoluiu e muito.
bjos