segunda-feira, 18 de março de 2013

Resenha: A Viagem do Elefante (José Saramago)



O livro narra a história de Salomão, elefante nascido em Goa e levado para Portugal no Século XVI e que, anos depois, é oferecido pelo Rei Dom João III e sua esposa, Catarina D’Áustria, ao arquiduque austríaco Maximiliano II, como presente de casamento. A inacreditável viagem do paquiderme de Lisboa, em Portugal, a Viena, na Áustria, e todas as dificuldades do trajeto é o que acompanhamos no livro.

Salomão havia sido levado para Portugal para atender a caprichos de Dom João, que precisava de algo excêntrico e vistoso para chamar a atenção dos súditos. De fato, o gigantesco animal de 4 toneladas foi a atração da cidade durante um bom tempo, mas, assim como ocorre com todas as novidades empolgantes, caiu no esquecimento e passou a ser um estorvo. A oportunidade perfeita de se livrar do problema e, de quebra, causar impacto junto ao povo austríaco, se deu na forma do presente de casamento.

No entanto, é lógico que enviar um animal desse porte mais todos os suprimentos de que necessita em uma viagem de meses, que cruza vários países, não é uma tarefa simples. Infelizmente, as falhas de logística e de planejamento só foram percebidas quando a caravana já estava em curso, e incluíam desde a escolha inadequada do período para o deslocamento (era uma época chuvosa de inverno) até a organização dos componentes no comboio, passando por problemas diplomáticos entre os países envolvidos na entrega do “presente” e um trecho do trajeto que exigia o transporte por navio.

Embora a história seja interessante, senti falta de um destaque maior ao elefante, supostamente o protagonista da trama. Como em outros livros do Saramago, o autor usa uma viagem apenas como pano de fundo para mostrar seu descontentamento com os portugueses e com a humanidade como um todo, fazer críticas à igreja e mostrar os males causados pela religião e falar sobre a “lei da vida”. Tudo com aquele seu estilo peculiar de escrita, com texto recheado de observações sobre a natureza humana e comentários ácidos.

O interessante é que, por mais insólita que possa parecer a tal viagem, ela ocorreu mesmo e gerou outro livro, posterior ao do Saramago, que trata do mesmo tema: "Salomão - O Elefante Diplomata", de Jorge Nascimento Rodrigues e Tessaleno Devezas. Na verdade, essa outra publicação também fala de outros animais exóticos de grande porte usados por Portugal para melhorar sua imagem diante de outros países europeus: Annone, um elefante branco enviado por D. Manuel I ao Papa Leão X, em Roma, juntamente com outros animais, e Ganda, o rinoceronte oferecido também por D. Manuel I ao Papa Leão X, mas que não teve a mesma sorte e que morreu no naufrágio do barco que o transportava. O rinoceronte Ganda também inspirou "40 Rinocerontes", de Israel Jorge, um livro de crônicas.

Como se vê, não é de hoje que a humanidade tem mania de grandeza e excentricidades estapafúrdias que terminam mal. E, apesar de acharmos que somos “seres evoluídos e superiores”, séculos após séculos continuamos cometendo os mesmos erros. Não sei quanto a vocês, mas eu não vejo muito progresso. Ainda bem que pelo menos há (ou havia) pessoas como Saramago, para nos fazer rir de nossas próprias desgraças.

"O que nos vale é o bom feitio dos elefantes, especialmente dos oriundos da índia. Pensam eles que é preciso ter muita paciência para aturar os seres humanos, inclusive quando nós os perseguimos e matamos para serrarmos ou arrancarmos os dentes por causa do marfim. Entre os elefantes recordam-se com frequência as famosas palavras pronunciadas por um dos seus profetas, aquelas que dizem, Perdoai-lhes, senhor, porque eles não sabem o que fazem".

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Este post faz parte do Desafio Literário 2013 - Mês de Março: Animais Protagonistas. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DL2013, clique AQUI. 

3 comentários:

Taciele disse...

Gosto muito do mestre José Saramago, mas por algum motivo, que eu ainda não descobri qual é, A Viagem do Elefante sempre foi o menos "interessante" (uso por falta de palavra melhor) para mim. Mas acredito que sendo do Saramago já vale a leitura, afinal nunca é o que a gente espera. Sempre tem um "quê" a mais que sempre o destacou.

Gostei muito da sua resenha e estou bastante feliz pelo DL ter me proporcionado conhecer esse espaço, que é tão bacana! Enfim, adorei! Beijos ^^

Michelle disse...

Obrigada, Taciele!
Também sempre considerei "A viagem do elefante" o menos interessante, mas achei que o tema de animais protagonistas do DL era o momento perfeito para conferir a história. De fato, não gostei tanto quanto de outros títulos, mas mesmo assim valeu a pena. As observações do Saramago sobre o comportamento humano são imbatíveis.
bjo

Universo dos Leitores disse...

Este eu ainda não li, mas tudo que já li de Saramago até hoje me encantou. Ele é crítico, inteligente, diferente! Sou fã. Excelente dica!

www.universodosleitores.blogspot.com.br