segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Resenha: O Apanhador no Campo de Centeio


Holden Caulfield é um garoto de 17 anos que está internado devido a um esgotamento nervoso. Enquanto se recupera, ele relembra alguns fatos ocorridos nos poucos dias que antecederam seu surto, desencadeado, ao que tudo indica, por sua iminente expulsão do colégio às vésperas do Natal.

Reli o livro há pouco tempo para participar da discussão no grupo do Charlie's Booklist e me surpreendi ao me deparar com uma história completamente diferente daquela que li pela primeira vez. Meu primeiro contato com esse clássico foi decepcionante, pois eu havia escutado rumores de que era o livro favorito dos serial killers, então esperava uma trama cheia de sangue e violência. 

Não podia estar mais enganada. Se eu pegasse para ler o livro pela primeira vez agora, com uma simples busca na internet descobriria que essa história de serial killers não tem nada a ver. No entanto, lá nos idos de 1900 e qualquer coisa, a internet engatinhava no Brasil, minha conexão era discada, eu usava a linha telefônica da casa dos meus pais, ou seja, não dava para ficar navegando por lazer. Era só entrar, ver e-mail e sair.

Voltando à minha experiência recente... comecei a ler sem expectativa, lembrando apenas que não haveria assassinatos na história. Me deixei conduzir pelas memórias do Caulfield e fiquei maravilhada com o que encontrei: um livro que fala de tudo, sem falar de nada. Parece bizarro? Eu explico.

Holden é um adolescente comum, que procura seu lugar no mundo. É um cara solitário, embora não esteja nunca sozinho. Não vê sentido em continuar estudando. Quer sair para ver o mundo e buscar sua independência, mas o desconhecido o assusta. Se diz “pegador”, mas na verdade nunca teve experiências sexuais (e quando surge a oportunidade de ficar com uma mulher, ele foge) e, no fundo, nutre ideais românticos (idealiza a amada, uma vizinha de quem guarda boas lembranças, mas com quem nunca teve nada). Não tolera a hipocrisia dos adultos, não suporta o comportamentos dos amigos, detesta tudo e todos, está constantemente reclamando... ou seja, é um chato. Mas é um chato assustadoramente real.

De fato, não há ação concreta na história. Tudo se resume aos pensamentos do protagonista (que está sempre com algum plano em mente, muda de ideia toda hora, se vê realizando grandes feitos), mas suas intenções nunca se transformam em ações. Como o próprio Caulfield confessa em determinado momento, ele é covarde. E também mentiroso patológico. Não consegue controlar as mentiras que saem de sua boca.

O mais bacana do livro é ler nas entrelinhas, se reconhecer um pouco na chatice do narrador que, como todo adolescente, adora um drama, se acha o centro do universo, considera seus problemas piores do que os de qualquer outra pessoa. O mundo dos adultos é algo estranho e nojento para Holden, que quer crescer sem perder sua inocência infantil.

O que eu tenho a dizer é que gostei demais dessa minha releitura. A falta de expectativas e também o fato de já ter passado dessa fase complicada da adolescência me ajudaram a ver as coisas com outros olhos, a apreciar muito mais o que estava sendo contado. Outro ponto positivo foi o uso de linguagem bem coloquial que, na edição que eu li, manteve as gírias e expressões da época em que o livro foi escrito (anos 50). Isso ajudou muito a situar a trama e algumas questões abordadas. Também foi bom poder traçar um paralelo entre esta história e outros livros adolescentes que fazem parte da lista do Charlie, bem como com o próprio "As Vantagens de Ser Invisível".

Um livro ótimo! Prova de que a apreciação depende muito da fase da vida do leitor e que releituras podem ser bem interessantes.

“A marca de um homem imaturo é que ele deseja morrer nobremente por uma causa. A marca de um homem maduro é que ele deseja viver humildemente por uma causa”.

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Esta postagem faz parte das leituras do Charlie's Booklist - Junho.



Esta postagem também faz parte do Desafio Realmente Desafiante 2013 - Item 16. Reler e resenhar um livro que você leu há muito tempo e nunca resenhou. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DRD2013, clique AQUI.

7 comentários:

Melissa Padilha disse...

Oi Michelle !
Nossa esse é um dos meus livros favoritos, acho uma história deliciosa. Faz já um bom tempo que li, também preciso de uma releitura, mas lembro que tenho ótimas impressões de quando li.
bjos
Melissa

schrotz disse...

Eu tenho tanta vontade de ler esse livro, mas eu só acho num preço que eu realmente não tenho como pagar HAHAHA, espero encontrar logo numa biblioteca... Amei a resenha e também ouvi muito sobre ser o favorito dos seria killers~ HAHA
Boa semana!
http://literallypitseleh.blogspot.com.br/

Taciele Morais disse...

Sempre tive uma curiosidade enorme a respeito de "O Apanhador..." o que, consequentemente, aumenta a minha expectativa e aí que mora o perigo. Tenho medo de me decepcionar, de não estar a altura de tudo o que já ouvi e como você mesma pontuou, ser o livro favorito dos serial killers, embora eu não espere uma trama recheada de sangue e violência rsrs.

Sua resenha desmistificou um pouco aquilo que eu esperava, e aumentou a minha vontade de ler e, sem dúvida, reconhecer a adolescente chatinha que hoje vejo que fui (e que, por vezes, ainda sou). Agora posso lê-lo com uma visão mais real e menos pintada do "mito" dos serial killers rs. Bjos! =)

lualimaverde disse...

Mi, essa história com o assassino do John Lennon criou um mal entendido em cima desse livro que dura até hoje. Amei a sua resenha! "um chato assustadoramente real", resumiu o Holden! =)
Beijos!!

Claudia disse...

Mi querida
Quero muito ler tbe.
Adorei sua resenha
Bjks mil

Michelle disse...

Melissa,
Eu adorei essa releitura. Incrível como o momento da leitura e nossa experiência de vida afetam a percepção.

Schrotz,
O livro é caro mesmo, até em sebos. Mas dá para ler em e-book ;)

Taci,
Expectativas altas são um horror! E essa lenda do serial killer engana. Pode ler que você vai gostar!

Lua,
Um inferno essa lenda! O jeito é se jogar na leitura e aceitar as chatices do Holden...hehe

Clau,
Vale a pena, viu?

Andante disse...

Olá, eu fiz uma lista dos livros que precisava ler ( acho que todo mundo faz ), ainda mais sendo estudante de Letras e me surpreendi com o livro, pela história simples ( que sempre parece ter uma outra história encerrada nela ). P.S Adorei o blog vou virar um leitor assíduo.