quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Resenha: A Ilha do Dr. Moreau


Edward Prendick é um náufrago que, prestes a perder as esperanças de resgate, é salvo por uma embarcação cuja tripulação é pouco amigável. Em determinado ponto da viagem, Montgomery, o homem responsável por cuidar da precária situação física de Prendick ao ser tirado do mar, desembarca em uma ilha junto com sua indesejável e barulhenta carga de animais. O capitão da escuna aproveita então para se livrar do náufrago recolhido contra sua vontade e o lança novamente nas águas a bordo do pequeno escaler, sem nenhuma provisão. Desesperado por não poder permanecer na escuna nem acompanhar Montgomery até a ilha, Prendick pensa em quão irônico e traiçoeiro pode ser o destino. Para o seu alívio, Montgomery decide violar as regras e permite que Prendick o siga até a ilha. O que parecia uma bênção para o náufrago logo se mostra uma verdadeira maldição.

“A ilha do Dr. Moreau” é um clássico da ficção científica de horror que já ganhou diversas adaptações para o cinema e serviu de inspiração para incontáveis histórias que tratam dos resultados catastróficos de brincar de Deus. No caso específico do livro de H. G. Wells, o responsável por lançar o terror sobre a Terra é o Dr. Moreau do título, um médico que realiza estranhos experimentos com animais e seres humanos e que, tendo sido obrigado a deixar a Inglaterra por causa de suas experiências envolvendo vivisseção, encontra em uma remota ilha tropical o lugar perfeito para dar continuidade ao seu trabalho abominável.

A escrita de Wells é simples e fluida e, mesmo se tratando de uma história de ficção científica, não há termos estranhos ou inventados especificamente para o livro. As 176 páginas da edição foram vencidas sem esforço, graças ao estilo despojado da narrativa e também aos mistérios da trama, que me impeliram a continuar lendo ansiosamente para saber o que ia acontecer em seguida com o pobre Prendick e com os bizarros moradores de ilha.

Na verdade, as primeiras linhas, quando o protagonista ainda estava à deriva no mar, já exprimiam tanta tensão que os capítulos foram passando e eu mal percebi. O horror dá as caras já na escuna que resgata Prendick, com a tripulação mal-humorada e desconfiada e com o peculiar assistente de Montgomery, que tinha uma postura de símio e olhos penetrantes que refletiam a luz. A algazarra dos animais que faziam parte da carga de Montgomery e os uivos constantes durante a noite eram mais indícios do que viria mais à frente.

H. G. Wells usa habilmente uma história de ficção científica para falar de temas controversos e pertinentes, como a vivisseção e ética na ciência e na medicina (isso lá nos idos de 1896!). Os atos repugnantes do Dr. Moreau levantam questionamentos sobre os limites, as formas e as necessidades das pesquisas, nos fazem pensar na empatia com outros seres vivos (humanos ou não) e no que nos diferencia de outras espécies. Além disso, o autor ainda apresenta uma complexa sociedade dos homens-animais, que pode ser vista como uma crítica à religião e à organização social. Como se vê, bons motivos para ler esse livro é que não faltam.

Duas referências bacanas a “Ilha do Dr. Moreau”:
- “Os livros que devoraram meu pai” – Nesta homenagem à literatura, Afonso Cruz inseriu o cachorro Prendick, que guia o jovem protagonista da história pelos livros da biblioteca de seu falecido pai, que, na verdade, não havia morrido, e sim desaparecido na tal ilha misteriosa.
- “Orphan Black” – Na recente série de ficção científica que tem como mote a clonagem humana, em determinado episódio um dos cientistas criadores do experimento presenteia uma garotinha com um exemplar de “A ilha...”. Em outro episódio, descobrimos que o livro é a chave de um mistério que envolve o futuro da protagonista.

“Lá fora os uivos pareciam ainda mais altos. Era como se todo o sofrimento do mundo estivesse concentrado numa única voz. E no entanto eu sabia que, se toda aquela dor estivesse sendo experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito (e tenho pensado nisto desde então) que eu poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós.” 

Preciso dizer que o livro é sensacional e que me arrependo de não ter lido nada do autor antes? Leiam!

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Outubro: Ficção Científica. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI.

Um comentário:

Angélica Roz disse...

Oi Michelle!
Morro de vontade de ler esse clássico! E acho que não preciso dizer o quanto a sua resenha me motivou a lê-lo logo! :D
Orphan Black? #LOVE!!

:) Beijos!