segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Resenha: O Diamante do Tamanho do Ritz e Outros Contos


No pequeno livro de 144 páginas estão reunidos três famosos contos de Fitzgerald: “O Diamante do Tamanho do Ritz”, que conta a história de um garoto do Mississipi que entra em contato com os endinheirados da Nova Inglaterra e vive uma aventura inusitada ao passar as férias na casa de um de seus novos amigos milionários; “Bernice Corta o Cabelo”, sobre a garota do interior que tenta se ajustar aos costumes da cidade grande e entra em conflito com a prima popular; e "O Palácio de Gelo", no qual uma garota da Geórgia fica dividida entre um pretendente rico e suas raízes sulistas.

Em "O Diamante do Tamanho do Ritz" conhecemos John T. Unger, jovem de uma renomada família do Mississipi que vai estudar em Boston, no colégio preparatório mais caro do mundo. Lá, vive em um mundo completamente diferente e, embora cultivasse boas relações com os colegas, sua origem sempre o separava dos demais. Um dia, John conhece Percy Washington, novato amigável que acaba convidando o amigo para passar férias na casa de seus pais, em Montana. Animado, John aceita o convite e fica embasbacado ao chegar à propriedade e se dar conta do nível de riqueza e excentricidade da família do colega de classe. No entanto, o deslumbre dá lugar ao medo, quando John finalmente percebe o que era necessário fazer para manter a exclusividade do mundo perfeito.

“O diamante...” é simplesmente genial. Não é à toa que se tornou um dos contos mais famosos de Fitzgerald. Juro que eu não esperava encontrar em seu texto uma história de romance e suspense. Para mim, essa é uma faceta totalmente nova do autor. Adorei!

“Palavras pronunciadas rápido demais para serem compreendidas, unindo-se umas às outras – John ficou escutando sem respirar, apreendendo uma frase aqui e outra ali,–enquanto a voz falhava, voltava e falhava novamente - ora alta e incisiva, ora colorida com uma impaciência lenta e indignada. Então uma convicção começou a surgir para o único ouvinte, e conforme a compreensão tomou conta dele, um jato de sangue percorreu suas artérias. Braddock Washington estava oferecendo um suborno a Deus!”

Já em “Bernice Corta o Cabelo” nos deparamos com a garota do título, que vai passar férias na casa da prima atrevida e de língua afiada, Marjorie. Embora Bernice fosse inegavelmente bela, não conseguia atrair a atenção dos rapazes nos bailes devido às suas conversas chatas. Irritada, Marjorie lhe dá um ultimato: ou ela seguiria cegamente suas ordens para fazer sucesso, ou deveria voltar para casa. Pensando no quanto seria vergonhoso ter que encarar a mãe ao retornar antes do previsto, Bernice aceita o desafio da prima. O problema é que acaba ficando tão requisitada que desperta o ciúme de Marjorie e sentimentos de vingança.

Mais uma vez, me surpreendi com o tema. Fitzgerald foi muito perspicaz ao descrever a relação entre as primas e o intrincado jogo de sedução feminino, bem como a batalha de egos. E, claro, como sou fã de histórias de vingança, me diverti bastante com o desfecho.

“Aos dezoito anos, as nossas convicções são colinas das quais olhamos; aos 45, são cavernas dentro das quais nos escondemos”.

Por fim, “O Palácio de Gelo” narra a história de Sally Carrol, garota sulista que se incomodava com a falta de ambição dos amigos e que, portanto, declina propostas de casamento dos pretendentes locais em favor de um concorrente ianque rico. Todavia, quando ela finalmente vai visitar a casa do amado, no norte do país, enfrenta a frieza não só da neve, mas também dos parentes dele. Percebe, então, que seria sempre vista como diferente e inferior e passa por momentos de terror até se dar conta de que o dinheiro não bastava para comprar sua felicidade.

“(...) eu nunca poderia me casar com você. Você tem um lugar em meu coração que nunca poderá ser ocupado por ninguém mais, mas se eu ficar amarrada aqui, vou ficar sempre insatisfeita, vou achar que eu estou... me desperdiçando. Eu tenho dois lados, você sabe. Há aquele lado velho e sonolento que você ama; e há uma espécie de energia, um sentimento que me dá vontade de fazer as coisas mais estranhas. Esta é a parte de mim que pode se tornar útil em algum lugar diferente, a parte que vai continuar quando eu deixar de ser linda".

Este foi o menos impactante, o que não quer dizer que seja ruim. Novamente, o assunto é a atração do dinheiro e o preconceito contra os sulistas. A novidade é o toque sobrenatural.

Fitzgerald, mais uma vez, enfatiza em seus trabalhos o glamour da riqueza, ao mesmo tempo em que mostra o lado inescrupuloso e fútil da classe mais abastada, e mostra os esforços dos reles mortais para agradar aos mais importantes e entrar no seleto clube daqueles que podem aproveitar tudo de bom que o dinheiro pode comprar. Os contrastes entre o sul e norte dos Estados Unidos também ganham destaque. Entretanto, ao contrário do enfado que senti ao ler os romances do autor ("O Grande Gatsby" e "Este Lado do Paraíso"), desta vez a leitura fluiu fácil e consegui saborear a crítica embutida no texto. Não sei se foi o formato das histórias, se Fitzgerald realmente escreveu de um jeito diferente aqui ou se as diferenças se devem apenas à tradução, só sei que, com os contos, o autor finalmente me conquistou.


Histórias intrigantes e rápidas de ler. Recomendo!

2 comentários:

Flávia disse...

A primeira vez que li O Grande Gatsby achei tão chato que abandonei a leitura. Quando peguei pela segunda vez, amei a história e se tornou uma das melhores leituras que fiz na vida. Acho que é a questão do "momento certo". Agora fiquei com medo de encarar os outros livros do autor, mas vou anotar sua dica.
Bjs

Lígia disse...

Do Fitzgerald só li "O grande Gatsby" mesmo e gostei. Não conhecia esses contos, fiquei com vontade de ler :)